terça-feira, 10 de agosto de 2021

 A fenda


Tinha aprendido a nadar na piscina de água do mar da Figueira da Foz, com aulas pelo cu da manhã. Movimentos treinados primeiro na areia, depois na gélida água salgada, com os braços enfiados em câmaras de ar dos pneus penduradas de uma estrutura metálica. Eu, branquela de pele delicada, a dar braçadas com quanta energia tinha para aprender a nadar o mais rapidamente possível, ao fim de algum tempo vi-me com os sovacos em carne viva, esfolados pela fricção. Minha Mãe insistiu em me proibir de ir às aulas durante dois ou três dias, para dar um pouco de descanso à pele, até porque o meu Mano, devido ao frio que apanhávamos todas as manhãs, havia contraído uma broncopneumonia, estava bastante doente e não podia ser deixado sozinho. Bem protestei; de nada adiantou, porém. Queria lá saber das dores e do ardor que a água salgada provocava na pele ferida! Podiam até pôr-me pimenta! Eu queria era aprender a nadar, para poder embrenhar-me sem chaperon nas águas revoltas da praia. Sabia o caminho, podia dispensar a escolta.

Piscina do Sr. Araújo

Até então, tinha tido um “banheiro”, que vinha buscar-me a meio da manhã e da tarde para me levar ao mar, mas ficava muito zangada quando ele me levantava acima das ondas, porque lá se ia o gozo do banho. Aquilo não tinha piada nenhuma! O objectivo de um banho de mar, pensava eu, era ficar toda salpicada daquela água fresca e cheia de sabor. Minha Mãe havia contratado o rapaz porque eu, pequenita e inconsciente, avançava mar adentro, sem medos e sem parança. Por isso as aulas de natação eram tão necessárias...

Passados os achaques, lá voltei às aulas, enquanto o meu Mano se viu obrigado a parar com elas de vez, por esse ano, por causa da doença. Consegui aprender, nos poucos dias que restavam, a nadar bruços. Meu Pai, que tinha estado a trabalhar, chegou e foi assitir à última aula. Com o nervosismo, ansiosa por mostrar que já era capaz, ao fim de duas ou três braçadas fui-me abaixo, engoli um “pirolito” e chorei amargamente, não por causa da água que bebi, mas pelo desespero de ter falhado quando era necessário mostrar o que valia, pela raiva que sentia de mim própria, pela enorme desilusão que teria causado a meu Pai que, benevolamente, me confortou, dizendo que eu tinha nadado bem e que, com a prática, as coisas iriam correr melhor.

Piscina do Sr. Araújo em 1972


No ano seguinte trocámos a Figueira da Foz pela Foz do Arelho. As águas quietas da lagoa, mais quentes e menos agitadas, eram uma melhor opção para evitar doenças e proporcionar maior segurança. Aboletámo-nos numa casa nas Caldas da Rainha, em que a dona alugava os quartos e cozinhava para todos nós com os ingredientes que, manhã bem cedo, comprávamos na praça. Seguíamos então para a praia onde, no primeiro dia, meu Pai me presenteou com um colete salva-vidas insuflável, para colmatar qualquer falha minha e impedir, assim, que passasse por aflições. Liberdade! Era esse o sentimento mais forte que o colete me oferecia. Passava o tempo dentro de água, nadando sem parar, porque fui avisada da existência de peixe-aranha e peixe-pau. Morria de medo de ser picada; logo, evitava ao máximo tocar no fundo, mesmo quando mergulhava. Um dia, numa das minhas incursões solitárias lagoa adentro, cada dia mais longe, senti um puxão no fato-de-banho. Olhei para trás e vi um peixe-pau agarrado ao tecido. Sacudi o rabiosque com força, ele soltou-se e eu nadei até me faltar o fôlego. O susto não impediu que continuasse a tentar a travessia da lagoa, que consegui realizar lá para o fim das férias. Sentia-me como peixe na água com o colete e a auto-confiança foi aumentando mas, nas férias seguintes, logo num dos primeiros dias, o meu adorado colete branco e azul-turquesa teve um furo. Meu Pai, com a sua perícia em arranjos, conseguiu remendá-lo, mas outro se abriu, ambos do tamanho da cabeça de um alfinete e perto do pipo. Enchia-se e começava logo a perder o ar. Nada a fazer, sentenciou meu Pai. Desolada, pedi-lhe que me comprasse outro. Choraminguei, pintei a manta, fiz promessas, zanguei-me, amuei. Nada o demoveu. A resposta foi seca: “Não te compro mais nenhum colete. Já sabes nadar, não sabes? Então, desenrasca-te!” À falta de melhor, foi o que fiz. Depressa percebi que sobrevivia bem sem coletes, bóias ou outras ajudas. Comecei a nadar cada vez melhor e mais rápido e aventurava-me quase diariamente até ao outro lado, uma vez que tinham instalado uma plataforma a meia distância onde se podia descansar, caso fosse preciso.

Não me recordo já se foi nesse primeiro ano, o do colete, ou no seguinte, o dos furinhos no dito, que nos aconteceu um percalço de alguma gravidade. O meu Mano gostava muito de dar passeios e costumava levar-me com ele. Essas passeatas tinham todas o mesmo desfecho: no regresso, choviam nos ouvidos de minha Mãe as longas queixas sobre o meu grande cansaço, porque o Mano tinha “passos de ladrão”. Era assim que eu classificava as suas passadas, que exigiam três das minhas para conseguir acompanhá-lo. A nossa diferença de idades de seis anos e picos tinha, na extensão das pernas, o seu expoente máximo. Por vezes recusava o convite, mas ele lá conseguia convencer-me e acabava sempre por chegar exausta, mesmo com as paragens que ele fazia, disfarçando um sorriso, quando as minhas queixas já atingiam o nível do insuportável.

Nesse dia fomos passear desde a praia da lagoa à praia do mar, nessa altura totalmente ignorada, muito diferente do que é hoje e de mais difícil acesso. Não se seguia pela beira-mar, como agora, nem a praia era visível da lagoa, que era muito mais curta. Lembro-me que o lugar que dava passagem à água do mar consoante as marés, a Aberta, ficava longe, após uma boa extensão de areia molhada e um pouco movediça. Para se ir à praia do mar era preciso atravessar um grande areal, por trás das barracas da praia da lagoa, cheio de pequenas dunas infestadas de vegetação característica da orla marítima, a “corta-mato”. Anos mais tarde, a praia do mar teve direito a meia dúzia de barracas brancas de longos bicos, sempre húmidas pela manhã, com a praia enclausurada em nevoeiro cerrado até ao meio-dia, pelo menos. Acedia-se-lhe através de uma escadaria íngreme perto do Hotel do Facho. No entanto, na época de que falo, ainda ninguém para lá ia e era um lugar lindíssimo, no seu estado inteiramente selvagem. A maré estava baixa e fomos chapinhando até um par de rochas: uma em forma de prisma semi-triangular, alta, ao lado de outra arredondada, mais baixinha. Ali ficámos sentados, cada um de nós imerso nos seus pensamentos, a olhar e a ouvir o mar perdido no horizonte, absortos na comunhão com a natureza. Não tenho ideia de quanto tempo passou, mas deve ter sido bastante. Quando demos por isso, o mar tinha-nos cercado, os rochedos estavam no meio de água já com alguma altura e só tínhamos disponível o cocoruto da rocha onde estivéramos sentados. O Mano inspeccionou as hipóteses de saída e viu que a melhor maneira era esgueirar-mo-nos por entre as duas rochas, onde a água não era ainda tão profunda como do outro lado, mais perigoso, aberto ao mar e à ondulação, cheio de pedras de tamanhos vários, e nadar depois até à praia. Ele, mais crescido, tinha pé, quase no limite. Eu, pequenota de uns seis ou sete anos, não. Também não era possível levar-me ao colo, porque o espaço era bastante estreito. Nunca fui menina de entrar em pânico (a não ser com bicharada nojenta) mas a situação era medonha, poderia ter despoletado uma reacção mais descontrolada da minha parte, sendo ainda tão novita e inexperiente. Felizmente reagi bem, embora não sem algum receio. Quando me perguntou se seria capaz de passar entre as rochas, escorreguei pela exígua fenda, com a água a bater-me no queixo trémulo, ele atrás de mim a guardar-me a retirada, e fiz o que tinha a fazer até chegar à areia.

Estávamos a salvo! Não me lembro de ter chorado e não era do meu feitio nem da minha educação fazer grandes berreiros. Provavelmente choraminguei. Nisso, era perita! Combinámos não contar nada aos Pais e eu senti-lhe a vergonha na voz, ao pedir-me segredo. O meu único receio era que, ao secar, ficassem manchas de sal no maillot e este se estragasse, porque não era suposto molhar-se em água salgada. O dia tinha acordado enevoado e frio e a Mãe, para prevenir, tinha-me vestido o maillot do ballet, de lã preta, muito fininho, que me protegeria melhor de possíveis constipações. Chegada a hora de ir nadar, este seria trocado por outro, próprio para banhos em salsas águas. Daria ela conta das manchas brancas do sal? Era melhor esfregá-lo com as mãos quando estivesse seca, para não chamar a atenção. E demos início ao regresso, calados, esmagados por aqueles rochedos que nos tinham perdido e, ao mesmo tempo, nos tinham ajudado.

Após longa caminhada, chegámos à praia da lagoa. Nem sei como os Pais não estranharam que eu não fosse a resmungar, mas nenhum de nós disse palavra sobre o sucedido. Mais tarde, o Mano não aguentou guardar segredo e despejou tudo. A consciência pesava-lhe, por ser o mais velho e ter sido descuidado, pondo-nos a ambos em perigo. Os Pais ficaram horrorizados com o relato mas não ralharam, uma vez que a verdade tinha sido exposta em toda a sua crueza.

Foi com valores assim que cresci, o que não me impediu de ser uma miúda rebelde. Muito provavelmente nesse mesmo dia, depois de andar duas horas ou mais dentro de água, fiz o que sempre fazia quando a Mãe, à beira da lagoa, chamava ”Graciiiiiiiiinha!”: virar-me de costas e tapar os ouvidos com os indicadores, fazendo-lhe saber, por esse modo pouco educado, que não ia acatar a ordem de sair sem resistência, nem que houvesse navalheiras para o lanche.

ADENDA: Só agora me lembrei que foi mais tarde que passámos a ficar na casa da Srª. Ricardina. Nos primeiros anos, íamos para a Pensão dos Olhos Pretos (ou Negros, um nome assim poético), quase no centro das Caldas. Um dia contarei outras histórias desse tempo.



domingo, 30 de junho de 2019







O COLÉGIO - III


Sonhei que tinha, finalmente, descoberto o nome da minha primeira Professora de Francês e que, a acreditar no apelido, ela era, afinal, filha de uma freira que posteriormente me deu aulas. 
Sonhos, esses malévolos produtores de realidades paralelas! 
Bem queria lembrar-me do nome dessa senhora, mas perdeu-se-me nos refegos da memória. Penso recordar-me de que era esposa de um militar e, por esse facto, provavelmente esteve só de passagem, naqueles dois anos. Desde que deixou de leccionar no colégio, nunca mais a vi.
Morena, usava os fartos cabelos negro-corvo presos num rolo na base, um pouco à moda dos anos 40, ou apertados num chignon. Vestia sempre tailleurs tipo Chanel, discretos e elegantes, em tons suaves, com camisas sedosas cor de creme ou de outra cor igualmente neutra, porém ornadas de um laço, uns folhos, ou mesmo um jabot. Eu admirava-lhe a elegância simples, o modo cordato e o Francês impecável.
Já não sei pôr de pé todos os pormenores daquele dia. Passou muito tempo desde que eu tinha doze anos, e a memória tem o estúpido hábito de só fixar o que bem lhe parece, embora tenha retido o mais importante.
Numa aula, a minha coleguinha de carteira, uma menina com síndrome de Down, disse qualquer coisa, não sei se em resposta a uma pergunta da professora. Eu, que já nessa altura usava de um humor um tanto a atirar para o negro, fiz uma qualquer observação jocosa. Em bom Português, saiu-me uma piada parva (ainda hoje acontece, por vezes, embora tente refrear a língua quando me chegam esses repentes). Para minha consternação, a professora parou a aula e, em tom calmo, chamou-me à atenção, condenando o que eu acabara de fazer. Protestei que não o tinha feito com má intenção, que era amiga da minha colega e não era meu desígnio magoá-la. A senhora, por outras palavras, explicou-me que de boas intenções estaria o inferno cheio e pediu-me delicadamente que saísse e aproveitasse o tempo que restava da aula para pensar no que tinha dito e nas consequências da minha graçola, tivesse a minha colega capacidade para a entender.
Fui para o corredor e lá fiquei, a remoer no que se havia passado e no modo leviano como eu via, até então, a questão das diferenças. Fez-me bem, esse tempo de reflexão, para o resto da vida! Consternada, percebi que tinha cometido uma injustiça para com alguém que não tinha como se defender, nem que fosse com uma chalaça parva como a minha. Eu, que me prezava de ser uma pessoa correcta, tinha errado, justamente com alguém de quem me considerava amiga.
Acabada a aula, entrei para pedir desculpas e para dar conta à professora de que tinha entendido a verdadeira dimensão do meu erro. Pedi também perdão à minha amiga, que se me lançou ao pescoço e me cobriu de beijos. Durante o resto do ano, foi assim que andou, sempre enlaçada a mim. Desde aquele dia, armada em sua defensora, fiz questão de não permitir que mais alguém a magoasse.
A história não ficou por aqui. Na aula seguinte, a professora pediu-me que ficasse um pouco mais no final e ofereceu-me um cartãozinho com um poema, que ainda conservo num envelope, juntamente com as outras boas, mas poucas, recordações dos tempos do colégio. O poema, “La bonté”, que se reproduz acima, era de François Andrieux (1759 - 1833), um magistrado, dramaturgo e poeta francês, que chegou a ter um cargo do governo no início da Revolução, tendo-se afastado quando começou o Terror. Li-o, com as lágrimas rolando cara abaixo, e reli-o depois vezes sem conto.
Foi o último ano em que essa senhora deu aulas naquele colégio e tenho pena de nunca mais a ter encontrado. Para além de me ter ensinado os fundamentos do Francês, que me ficaram para sempre, deu-me uma lição para a vida.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


O COLÉGIO - II


Como em todos os lugares, não havia só pessoas más no "meu" colégio. O problema era que, no que às freiras dizia respeito, se contavam pelos dedos de uma mão.
Havia a Madre Santos, uma velhinha corcovada, pequenina e afável, que me dava Português. Depressa me tornei uma das suas preferidas, por ser uma das melhores das suas alunas. Foi ela quem me ensinou os fundamentos da língua-mãe e, se hoje sei pôr as minhas vírgulas nos lugares, a ela o devo. Excelente professora, eu fazia por corresponder às suas expectativas e quase todas as semanas recebia "prémios", que consistiam em cartõezinhos feitos com o maior desvelo, em cartolina, com frases motivadoras e um "santinho" recortado, à guisa de decoração, dos quais ainda conservo vários exemplares. Foi minha professora durante os dois primeiros anos.
No ano seguinte tive um estuporzinho que poderia ter morto o meu gosto pela leitura, se este não viesse de há muito, pelo que ficou intocado. Tinha a Madre Santos como referência para saber distinguir o trigo do joio e não misturar águas.
Retiraram a Madre Santos da docência devido à idade e aos achaques e, talvez dois anos mais tarde, recebi um convite para a visitar na sua cela, onde tomámos chá e ela inquiriu dos meus progressos nos estudos, numa bela tarde de conversa. Foi a primeira vez que transpus aquela porta, envolta em secretismo, que conduzia aos aposentos das freiras. Haveria de a atravessar ainda uma vez mais, para visitar outra das que foram minhas professoras, muitos anos depois, quando já me tinha tornado, eu própria, professora.
A Irmã-Enfermeira, de quem acho que nunca soube o nome, pois todas assim a chamavam, era um doce de pessoa que me ajudou a fazer a transição para o internato: quando fui internada de castigo estava-se no final do 1º período ou começo do 2º, todas as camaratas estavam cheias e eu fiquei interna na Enfermaria, onde dormia sozinha, excepto quando havia alguém doente. Escapei nesse ano aos escaldões, pois tomava duche numa banheira dos lavabos da Enfermaria, que só era usada por mim e pela Dona Antónia, que fazia parte dos quadros laicos do colégio e era uma espécie de educadora de infância.
À hora de deitar encontrava frequentemente, debaixo da almofada, um miminho da Irmã-Enfermeira. Da primeira vez, deixou-me um bilhetinho carinhoso em cima da dita, avisando-me da surpresa que me aguardava e pedindo segredo. Sempre que podia, surripiava algo da sobremesa do jantar para me trazer, e nada tinha que ver com o que nós, abjectas fedelhas cujos pais pagavam para ali estarmos, tínhamos por sobremesa. Eram dedos de dama, castanhas d'ovos, nozes de ovo e caramelo e outras delícias da doçaria conventual portuguesa, enquanto que nós, na melhor das hipóteses, tínhamos na mesa um prato com quatro bolachas geminadas (uma para cada) coladas por uns resquícios de geleia. A maior levava logo uma cuspidela por parte da colega mais afoita, assim que nos era dada licença para nos sentarmos, para que ninguém se atrevesse a comê-la. Eu, que sempre odiei nojices, ficava logo sem vontade de comer a sopa.
Ainda hoje não como "roupa velha", um dos pratos recorrentes naquele refeitório e, durante muitos anos, tive particular aversão por puré de batata, já que uma das "iguarias" que regularmente nos era servida consistia em puré de batata, que acompanhava um patareco mal-amanhado feito de (imagine-se!)... puré de batata rijo, com uma crosta tostada.
Enfim, consolava-me com os miminhos que, à noite, quase sempre me esperavam debaixo da almofada, e o cigarrito que fumava à janela da enfermaria que, convenientemente, dava para nenhures, tendo por baixo um telhado que me protegia de olhares indiscretos. Nunca aquela senhora me denunciou à directora e também nunca me disse uma palavra sobre os cigarros fumados às escondidas, mas era impossível que o não tivesse descoberto, por muitas precauções que eu tomasse.

Foram estas freiras duas das boas pessoas que tiveram influência no meu crescimento enquanto gente. A Madre Santos teve nas suas mãos o poder de reforçar o meu, já então, grande gosto pela literatura e pelo conhecimento da língua, e agarrou-o da melhor forma, sendo para mim mais um estímulo.
Acresce dizer que tive o sarampo muito tarde, aos doze anos, e deixou sequelas, agravando sobremaneira as minhas dificuldades respiratórias. De todas as professoras, a Madre Santos foi a única a dar conta do meu evidente desconforto na sala de aula. Ao aperceber-se do esforço que eu fazia para respirar, teve a atenção de me permitir assistir às aulas sentada no peitoril da janela, sempre que o tempo deixava. Nunca a esqueci e não ignoro o tanto que lhe devo!
Se uma andorinha não faz a Primavera, há andorinhas que adoçam os Invernos. 
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O COLÉGIO - I

Dos 10 aos 15 anos frequentei um colégio das Irmãs Doroteias, do qual conservo várias das amizades que lá fiz. Se umas acham que foram bons tempos e gostaram de lá andar, eu, pelo contrário, considero que passei lá quase 5 anos de degredo.

É verdade que ali não havia abusos sexuais, mas houve abusos de outros tipos, que marcaram para todo o sempre a minha personalidade e trouxeram, a determinada altura, ao de cima, o pior que dentro de mim havia. Felizmente que esse mal não era tão mau quanto isso e tive o discernimento suficiente para o canalizar para boas direcções.

Logo para começo, era abusivo que nos tratassem por um número, como se fôssemos prisioneiras (que o éramos, de facto!). Das poucas vezes que alguém tentou chamar-me um número, ignorei placidamente, como se fora surda, para perceberem que eu tinha um nome. Nessa altura, com 10 ou 11 anos, eu ainda não sabia que tatuavam números nos braços dos prisioneiros dos campos de concentração, mas sabia que os presos tinham números e não queria ser tratada como um qualquer irmão Metralha. Bastavam as fardas!
Abusos psicológicos eram prática constante e um contraste flagrante com a religião que pregavam. Não admira que, em pouco tempo, me tivesse tornado agnóstica e, mais tarde, ateia. 
Não andava ali para ver passar os aviões, reparava em pequenos pormenores que me foram dando a certeza de que não estava a lidar com pessoas de boa-fé e que precisava de ser astuta e ter o máximo cuidado para não acabar esmagada como um mosquito. Claro que tudo isso desenvolveu em mim uma rebeldia que poderia ter ficado no limbo onde estivera guardada até então, e que veio à tona em toda a sua glória. Daí a ser castigada com quase dois anos de internato foi um pequeno passo.
Experimentei então, como aluna interna, os abusos físicos. Não, as freiras não usavam castigos corporais como punição. Eram mais diabólicas. Descarregavam as suas frustrações através de tortura física dissimulada, como por exemplo fechar-nos a torneira da água fria passados 3 a 5 minutos de termos entrado no duche. Depois do escaldão, ainda era preciso ter coragem para tentar tirar a espuma que nos cobria o corpo. No pino do Inverno também nos fechavam a torneira da água quente, mas isso aguentava-se melhor. Os lavatórios só tinham água fria e fartei-me de lavar lá o cabelo, quando saía do duche, escaldada, sem ter tido tempo para o fazer.
Depois, havia as regras. Regras para tudo, até para andar. Algumas delas estavam mesmo a pedir para serem infringidas. Éramos crianças, que diabo! Qualquer infracção das regras era justa causa para humilhação, nem que fosse a de ficar na capela de joelhos, por tempo indeterminado, com os braços abertos como se fôssemos cristos pregados em cruzes.
Por isso as nossas carinhas eram sempre tristes e apagadas, não havia lugar a gargalhadas francas. Eu, que sempre fui dada à risota, teimei em nunca deixar apagar o riso dos meus lábios. Ria, à socapa, mas ria.
Havia ainda as gritantes diferenças sociais, que as freiras faziam questão de acentuar com veemência. Subia-me uma grande revolta quando as via humilhar as que estavam ali "de favor" e ficava mais revoltada ainda por nada poder fazer por elas, que aceitavam, submissas, mais uma e outra humilhação, mesmo a de não terem licença para brincar, como todas as outras. Revoltarem-se significaria a volta a casa e mais uma boca para os pais alimentarem.
Era triste, a vida no colégio. Suponho que deva agradecer às freiras por me terem mostrado a falsidade e a maldade, para poder escolher não ser como elas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019





Nascida em 1923, minha Mãe faria hoje 96 anos. Chegou aos 90, meta a que muitos não chegam, mas pouco tempo mais viveu depois do seu último aniversário, já no hospital, ao qual não assisti sequer (o único em toda a minha vida!), estando eu bastante doente em casa com um vírus que apanhei, enquanto esperava nas urgências que tratassem dela.

Sendo uma pessoa que, geralmente, não estava de muito boas relações com a vida, havia momentos em que via minha Mãe completamente descontraída e feliz: quando tinha entre mãos as suas agulhas. Fosse a fazer crochet ou a coser, o prazer era igual. Adorava criar, e tinha esse dom da criação, tanto a cerzir um buraquinho numa toalha como a espalhar uma miríade de flores numa camisola que as traças tinham chamado sua ou a elaborar uma fatiota nova.
Enquanto éramos pequenos, a nossa roupa era confeccionada por ela. Certo é que não havia lojas de pronto a vestir como há hoje e vivíamos numa aldeia; porém, era algo que lhe dava prazer e em que investia, fazendo a ronda das lojas de tecidos e das retrosarias quando passávamos os fins-de-semana em Coimbra e sempre que íamos a Lisboa visitar os Tios. Era de regra entrarmos na Casa dos Enxovais, na Casa dos Linhos e na Retrosaria Custódio, onde a tratavam pelo nome, com muitas mesuras pelo meio.
Um dia por semana, tinha a ajuda de uma costureira, mais por causa da tesoura, com a qual não se sentia tão à vontade, e para dar vazão ao muito que havia sempre a fazer no tratamento, confecção e manutenção das roupas, tanto nossas como de casa.
Na altura da minha infância, a costureira que ia lá a casa era a senhora Maria Vitória, que enviuvara bastante nova e complementava a pequena pensão que recebia do Exército, por morte do marido, com trabalhos de costura; uma senhora também criativa e arejada, que ajudava a Mãe a realizar as suas ideias mais inovadoras. Antes das principais estações do ano, compravam-se os figurinos, acima de tudo para ver e tirar ideias, não tanto para copiar modelos, e principiavam a executar-se as roupas necessárias a cada estação, por vezes consistindo apenas em adaptações, se havia tecido nas costuras e bainhas. Lembro-me de certa vez (era eu bem pequena,entre os 3 e os 4 anos) em que havia vários vestidos em fase de acabamento que era preciso provar. A senhora Maria Vitória pôs-me em cima da mesa e eu, com um ar inchado de felicidade, pedi-lhe: "Sirva-me todos!". A partir de então, sempre que me via, mesmo passados muitos anos, a senhora Maria Vitória repetia a minha frase com um largo sorriso nos lábios.
Entendiam-se as duas às mil maravilhas, conversavam enquanto iam costurando, a Mãe dava uma ideia aqui e ali e as roupas nasciam com facilidade, muitas vezes reaproveitando tecidos de outras que tinham deixado de servir, pois que as crianças crescem no espaço de um relâmpago. Recordo vestidinhos com peitilhos em "favo de mel", casacos e camisolas de lã que a Mãe tricotava ao serão na sua máquina, as batas para proteger a roupa, bordadas com cerejinhas e outros motivos infantis e tantos outros miminhos de bom gosto que usei ao longo da vida, concebidos por ela.
Como pessoa criativa que era, andava muitas vezes à frente do seu tempo. Uma ocasião, nas vésperas de um Inverno frio e chuvoso como eram então os Invernos que se prezavam, teve a ideia de me fazer um casaco de alamares com capuz, que muito mais tarde virariam moda, embora diferentes do meu, que era tricotado numa bonita e quentinha lã escarlate. Fez o casaco, com bolsos (para mim, tudo tinha que ter bolsos, para meter pedrinhas e outras porcarias que encontrava no chão!), na máquina de tricotar e forrou-o todo com um 'plaid' de fundo preto, atravessado por risquinhas vermelhas, verdes, brancas e amarelas. Com o tecido sobrante, confeccionou umas calças, para que eu andasse quente enquanto brincava na rua. Nessa época, em 1960, uma menina não vestia calças! Era a única miúda da aldeia que tinha umas calças; os moços gritavam-me palavrões e epítetos variados, mas aturava-lhes os remoques com indiferença. Adorava andar de calças, que se tornaram, por várias razões, o principal componente do meu guarda-roupa, e talvez venha daí o meu gosto por peças de roupa um tanto diferentes. Dois ou três anos mais tarde, num Verão, a Mãe fez-me umas calças 'à pirata', num lindo tecido azul-turquesa, apertadas com fivela na perna, que eram um mimo e justificavam plenamente o nome de "pirata" que meu Pai me dava desde pequenita. Se estavam para lavar, era um desgosto, e já não queria vestir outra coisa.
Cresci, assim, no meio de coisas bonitas feitas pela minha Mãe, nas máquinas de costura e de tricotar ou com os seus sábios dedos e as agulhas de crochet e de coser. Construía com as mãos o mundo onde se sentia feliz.
Já mais para o final da vida, antes de a doença lhe entorpecer o cérebro, viu numa revista uns penduricalhos em crochet para as portas dos armários ou gavetas de cómodas e fez alguns. Já não tinha paciência para trabalhos demorados e havia mais roupas do que sítios onde as guardar, de modo que aquilo era perfeito para ocupar o tempo e tinha a vantagem de se fazer depressa. Veio-lhe então a ideia de fabricar uns penduricalhos para as garrafas de vinho. Fez centenas deles, que foi oferecendo às pessoas de quem gostava, aprimorando a técnica e desenvolvendo novas ideias. Eu comprava-lhe linhas finas de vários tons na retrosaria e ela ia compondo cachinhos de uvas, tintas e brancas, mais ou menos maduras; depois, introduziu-lhes gavinhas, cujo suporte eu preparava, com fio de cobre fininho e um alicate.
A certa altura partiu um braço, que foi imobilizado durante uns meses. A fractura tinha sido grave e era necessário que conservasse o braço quieto, pois havia o risco de necrose se a coisa começasse a dar para o torto. Nem assim! Mal se sentiu capaz de mexer a mão, vá de fazer bolinhas de crochet. Só me chamava para enrolar as bolas de algodão que lhes metia dentro. Como não era ainda capaz de compor os cachos, foi fazendo "uvas" e metendo numa caixa, que logo ficou vazia quando, finalmente, se viu livre das ligaduras que a peavam.  Criou dezenas de variantes e, a certa altura, fez-me um conjunto de cachos com todas elas, que guardei religiosamente. Mais tarde, depois da chegada da gata, fazia também bolinhas de crochet para ela brincar.
Já a doença lhe minava o cérebro, embora ainda fosse ocupando os ócios com o crochet, quis oferecer umas pendurezas dessas a pessoa amiga e pediu-me se lhe cedia os cachos que tinha feito para mim, que iria repondo mais tarde. Fui parva e deixei. Nunca foram repostos, pois entretanto a deterioração tinha progredido depressa. No último Verão que passámos na praia, em que já estava num estado de grande agitação, sugeri-lhe que fizesse uns cachos de uvas, para ver se acalmava. Respondeu-me que ainda não era altura de estarem maduras.
Sobraram-me apenas dois, os primeiros dos muitos que fez, um deles incompleto.


Feliz aniversário, Mamã! Os teus dotes não estão esquecidos; guardo-os com todo o cuidado, como guardo as memórias no coração.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Doçuras e... travessuras

Foi em 1963 que mudámos de local de férias, da Figueira da Foz para as Caldas da Rainha, com idas a banhos à Foz do Arelho.
Ficámos, nesse ano, hospedados na Pensão dos Olhos Pretos. Sempre achei o nome poético e, nas passeatas nocturnas, conjecturávamos por vezes a quem pertenceriam os tais olhos. Lembro-me de escrever mentalmente umas quantas histórias sobre eles, nos minutos antes de adormecer, baseadas nas historietas fantásticas que então lia.
Numa breve olhadela pelo Google, verifiquei que ainda existe, com o nome Residencial Olhos Pretos e algumas críticas pouco elogiosas. O melhor que tem, dizem, é a localização central. De facto, era ali juntinho à Praça onde, ainda hoje, se comercializa logo pela manhã a fruta da região. Era uma boa pensão, à época. Nos dias de hoje, a julgar pelas fotografias, precisaria de mobiliário e decoração adequados, aproveitando os bonitos azulejos que tem de uma forma menos pindérica.

Cedo descobrimos, nesse primeiro ano, os agrados que as Caldas ofereciam. Perto da pensão achámos uma baiúca que, à noite (durante o dia, provavelmente, também, mas estávamos na praia) estava aberta, onde se vendiam as mães de todos os suspiros. Nada tinham a ver com os suspiros que conhecia ou viria a conhecer. A cor era diferente, e o tamanho, então... Gigantescos, para aí do tamanho de uma dúzia dos suspirecos que se vendem embalados em qualquer mercearia ou supermercado. É que aqueles suspiros tinham cor de caramelo e, por dentro, branquinhos, pareciam feitos de neve meio-derretida, com o merengue meloso e doce desafiando as papilas a cantar aleluias que nem os sinos da igreja da Senhora do Pópulo conseguiriam igualar. É minha convicção de que talvez fossem feitos com açúcar amarelo.
Claro que não no-los deixavam comer todos os dias, que aquilo era uma dose mortífera de açúcar, embora houvesse muito maior permissividade aos doces do que a que têm os pais mais modernos. Afinal, em minha casa, todas as sextas-feiras se faziam bolos e doces para toda a semana. Sobremesa era de regra, em refeições que consistiam quase sempre de sopa e dois pratos. Não sei onde metíamos tanta comida, nem como ainda tínhamos fome para lanches ou guloseimas nos intervalos!

Numa das ruas que desciam da Praça para o Parque, de um lado havia a Loja das Cavacas, que ficará para outra história, e várias lojas de louça das Caldas (não dessa em que estão a pensar), uma onde se vendiam apenas peças da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, outras onde se comercializava a cerâmica da SECLA e de outras pequenas fábricas familiares, de que falarei mais tarde.
Do outro lado da rua havia um rosário de pastelarias, quase pegadas umas às outras, com as mais variadas iguarias. Meus Pais elegeram uma, onde as mais das vezes entrávamos, quando as tardes se afiguravam incapazes de oferecer banhos e brincadeiras na areia, para um indulgente consolo. Nessa pastelaria fabricava-se um doce que não havia em lugar algum, segredo da dona, que o não passava a mais ninguém. Chamava-se “arrelia” e consistia numa simples fatia de torta. Fatias desse tempo, note-se, com cerca de um centímetro de espessura, não da grossura desmesurada das fatias que nos servem em qualquer pastelaria nos dias de hoje, por muitas vezes o preço daquelas. Bastava. Era tão deleitosa, aquela torta, cuja receita provinha decerto de segredo conventual, que a magra fatia era suficiente para nos deixar a sonhar com o paraíso. “Arrelias destas queria eu ter todos os dias!”, exclamava minha Mãe depois de a saborear. A torta, muito húmida, devia levar um ror de ovos, claro, um “everest” de açúcar e também alguma amêndoa finamente moída. Em vão minha Mãe tentou obter dicas sobre os ingredientes, para tentar reproduzi-la em casa.
Numa pastelaria mais acima entrávamos, muito espaçadamente, para consumar o pecado da gula consubstanciado numa trouxa d’ovos. Bastante mais caras que qualquer outro pastel, sabíamos que só de longe em longe nos era oferecido esse prazer. As capas de ovo da espessura de folhas de papel de seda sobrepostas, formando um pequeno canudo envolvido pela calda apurada a ponto de pérola e queimado com ferro, custavam 2$50. Vinte e cinco tostões era carote! Comíamos devagar, em pequenos pedacinhos, fazendo durar a volúpia o quanto podíamos, para terminar lambuzando-nos com a aromática calda.

Havia ainda outro ponto de interesse, um tanto prosaico: um carrinho de pipocas que estacionava todas as noites na praça onde desembocávamos, após a “volta dos tristes” pela Rua das Montras. Ali, um velho vendedor apregoava os jornais do dia, numa voz enrouquecida e com uma dicção peculiar, terminando o pregão com o Diário de Lisboa, como se dissesse “Peles de Coelho”. O que nos ríamos, de ouvido à escuta, esperando o final da ladaínha!
O carrinho do vendedor de pipocas exercia sobre mim um grande fascínio, não tanto pelo produto mas pelo processo de produção. Em casa, as pipocas chamavam-se “freiras” e eram feitas num pequeno “forno” embutido na parede exterior da cozinha, um buraco abobadado na parede que confinava com o quintal, onde se preparavam, por vezes, as brasas para a braseira, quando eu não as ia buscar, num caldeiro, à carvoeira que as fazia, do outro lado da rua. O milho rebentava e era preciso apartá-lo de imediato com uma pequena pá, para que não ficasse a saber a chamusco. No carrinho não havia nada disso, as pipocas iam crescendo vidro acima, loiras e gordas, e chegavam-nos num cartuchinho, temperadas com sal. Ainda não tinha nascido a moda das pipocas doces, caramelizadas, com aromas, manteiga e sei lá que mais, de que nunca gostei por aí além, porque a minha referência eram essas pipocas salgadas do primeiro carrinho que vi.

Ora, no Verão seguinte, já eu era conhecedora de todas as maravilhas que iria encontrar nas Caldas e tratei de me prevenir, guardando o dinheirito que me foram dando durante o ano. Era bastante gulosa (ainda sou) e gostava de rebuçados e chupa-chupas, que havia em abundância na modesta aldeia onde vivia. Não eram caros: rebuçados a meio-tostão, um ou dois tostões por um chupa-chupa caseiro de caramelo que era um monumento à gulodice. Gastei o menos possível, a pensar nos doces e “Rajás” de ananás com que haveria de me regalar nas férias.
Nesse ano fomos para uma casa particular, em que a dona se encarregava da limpeza e da comida, podendo assim minha Mãe escolher o que queria para as nossas refeições. Tratei de arranjar um escaninho no quarto para a “pataca”, onde guardava toda a minha “fortuna”. Tinham-me oferecido, provavelmente no Natal anterior, um pequeno porta-moedas em forma de sapatinho vagamente cinderélico, onde pouco cabia, mas também não era muito o que tinha.
O porta-moedas! Hoje exposto na beira de uma estante, a lembrar histórias.

Meu Irmão era o farejador de esconderijos oficial lá de casa. Esperava por ele, estudante no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, sempre com ansiedade. Nas férias de Natal, pedia-lhe que descobrisse onde estavam escondidos os presentes e os frutos secos e outros ingredientes gulosos necessários à preparação dos doces da quadra, que minha Mãe colocava fora do alcance de mãozinhas atrevidas. Levava-o à despensa e indicava-lhe os lugares, nas altas prateleiras, onde tinha visto minha Mãe guardar coisas. Ele, que nem furão, encontrava tudo. Subtraíamos uma parte, que era distribuída por ele, por mim e pelo Pai e, quando a Mãe dava conta, já nos tínhamos aboletado com algumas nozes, amêndoas, passas , avelãs, etc. Era o nosso maná, e minha Mãe ria à socapa, pois contava com isso quando abastecia a despensa para o Inverno.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Memórias travessas

Porque a memória gosta de nos pregar partidas. Quanto mais tempo passa, mas travessa se torna.
 
Encontramos (quantas vezes!) folhas rasgadas, fendidas, amarfanhadas, nos cadernos da vida. Folhas de que não tínhamos memória, entaladas nas gavetas do fundo devido a um erro ao fechá-las. Ficam lá durante eternidades e, um dia, ao tentarmos abrir a gaveta, esta empanca e recusa-se a revelar os seus segredos. Com um puxão, descobrimos a criminosa folha, rasgada, sangrando. Pegamos-lhe e, com desvelo, empenhamo-nos em recuperá-la. Cosemos os pedaços de histórias que ainda recordamos, procuramos pequenos fragmentos esmagados nos entalhes, colamos, cerzimos, arriscamos aplicar-lhe o brilho perdido, na tentiva de a devolver ao estado original. Umas vezes conseguimos ajustar todos os pormenores, outras vezes falhamos, e já não há quem nos possa ajudar a reconstituir tudo.
Este é um blog de memórias travessas, obstinadas em permanecer vivas, apesar dos entalões da memória. Serão, algumas, menos correctas, devido a falhas involuntárias; outras, falseadas por construções romanceadas que se foram avolumando nos recantos das recordações.
Mas não são assim, subjectivas, todas as memórias? Vistas por outrém, teriam talvez outras cores, outros contornos, outro ponto de vista. Este é o meu modo de as olhar, há muitos anos, quando era criança, em contraponto com a compreensão das coisas que o tempo, esse assassino de lembranças, nos traz.
 
 
By Liliane Porter