A fenda
Tinha aprendido a nadar na piscina de água do mar da Figueira da Foz, com aulas pelo cu da manhã. Movimentos treinados primeiro na areia, depois na gélida água salgada, com os braços enfiados em câmaras de ar dos pneus penduradas de uma estrutura metálica. Eu, branquela de pele delicada, a dar braçadas com quanta energia tinha para aprender a nadar o mais rapidamente possível, ao fim de algum tempo vi-me com os sovacos em carne viva, esfolados pela fricção. Minha Mãe insistiu em me proibir de ir às aulas durante dois ou três dias, para dar um pouco de descanso à pele, até porque o meu Mano, devido ao frio que apanhávamos todas as manhãs, havia contraído uma broncopneumonia, estava bastante doente e não podia ser deixado sozinho. Bem protestei; de nada adiantou, porém. Queria lá saber das dores e do ardor que a água salgada provocava na pele ferida! Podiam até pôr-me pimenta! Eu queria era aprender a nadar, para poder embrenhar-me sem chaperon nas águas revoltas da praia. Sabia o caminho, podia dispensar a escolta.
Até então, tinha tido um “banheiro”, que vinha buscar-me a meio da manhã e da tarde para me levar ao mar, mas ficava muito zangada quando ele me levantava acima das ondas, porque lá se ia o gozo do banho. Aquilo não tinha piada nenhuma! O objectivo de um banho de mar, pensava eu, era ficar toda salpicada daquela água fresca e cheia de sabor. Minha Mãe havia contratado o rapaz porque eu, pequenita e inconsciente, avançava mar adentro, sem medos e sem parança. Por isso as aulas de natação eram tão necessárias...
Passados os achaques, lá voltei às aulas, enquanto o meu Mano se viu obrigado a parar com elas de vez, por esse ano, por causa da doença. Consegui aprender, nos poucos dias que restavam, a nadar bruços. Meu Pai, que tinha estado a trabalhar, chegou e foi assitir à última aula. Com o nervosismo, ansiosa por mostrar que já era capaz, ao fim de duas ou três braçadas fui-me abaixo, engoli um “pirolito” e chorei amargamente, não por causa da água que bebi, mas pelo desespero de ter falhado quando era necessário mostrar o que valia, pela raiva que sentia de mim própria, pela enorme desilusão que teria causado a meu Pai que, benevolamente, me confortou, dizendo que eu tinha nadado bem e que, com a prática, as coisas iriam correr melhor.
No ano seguinte trocámos a Figueira da Foz pela Foz do Arelho. As águas quietas da lagoa, mais quentes e menos agitadas, eram uma melhor opção para evitar doenças e proporcionar maior segurança. Aboletámo-nos numa casa nas Caldas da Rainha, em que a dona alugava os quartos e cozinhava para todos nós com os ingredientes que, manhã bem cedo, comprávamos na praça. Seguíamos então para a praia onde, no primeiro dia, meu Pai me presenteou com um colete salva-vidas insuflável, para colmatar qualquer falha minha e impedir, assim, que passasse por aflições. Liberdade! Era esse o sentimento mais forte que o colete me oferecia. Passava o tempo dentro de água, nadando sem parar, porque fui avisada da existência de peixe-aranha e peixe-pau. Morria de medo de ser picada; logo, evitava ao máximo tocar no fundo, mesmo quando mergulhava. Um dia, numa das minhas incursões solitárias lagoa adentro, cada dia mais longe, senti um puxão no fato-de-banho. Olhei para trás e vi um peixe-pau agarrado ao tecido. Sacudi o rabiosque com força, ele soltou-se e eu nadei até me faltar o fôlego. O susto não impediu que continuasse a tentar a travessia da lagoa, que consegui realizar lá para o fim das férias. Sentia-me como peixe na água com o colete e a auto-confiança foi aumentando mas, nas férias seguintes, logo num dos primeiros dias, o meu adorado colete branco e azul-turquesa teve um furo. Meu Pai, com a sua perícia em arranjos, conseguiu remendá-lo, mas outro se abriu, ambos do tamanho da cabeça de um alfinete e perto do pipo. Enchia-se e começava logo a perder o ar. Nada a fazer, sentenciou meu Pai. Desolada, pedi-lhe que me comprasse outro. Choraminguei, pintei a manta, fiz promessas, zanguei-me, amuei. Nada o demoveu. A resposta foi seca: “Não te compro mais nenhum colete. Já sabes nadar, não sabes? Então, desenrasca-te!” À falta de melhor, foi o que fiz. Depressa percebi que sobrevivia bem sem coletes, bóias ou outras ajudas. Comecei a nadar cada vez melhor e mais rápido e aventurava-me quase diariamente até ao outro lado, uma vez que tinham instalado uma plataforma a meia distância onde se podia descansar, caso fosse preciso.
Não me recordo já se foi nesse primeiro ano, o do colete, ou no seguinte, o dos furinhos no dito, que nos aconteceu um percalço de alguma gravidade. O meu Mano gostava muito de dar passeios e costumava levar-me com ele. Essas passeatas tinham todas o mesmo desfecho: no regresso, choviam nos ouvidos de minha Mãe as longas queixas sobre o meu grande cansaço, porque o Mano tinha “passos de ladrão”. Era assim que eu classificava as suas passadas, que exigiam três das minhas para conseguir acompanhá-lo. A nossa diferença de idades de seis anos e picos tinha, na extensão das pernas, o seu expoente máximo. Por vezes recusava o convite, mas ele lá conseguia convencer-me e acabava sempre por chegar exausta, mesmo com as paragens que ele fazia, disfarçando um sorriso, quando as minhas queixas já atingiam o nível do insuportável.
Nesse dia fomos passear desde a praia da lagoa à praia do mar, nessa altura totalmente ignorada, muito diferente do que é hoje e de mais difícil acesso. Não se seguia pela beira-mar, como agora, nem a praia era visível da lagoa, que era muito mais curta. Lembro-me que o lugar que dava passagem à água do mar consoante as marés, a Aberta, ficava longe, após uma boa extensão de areia molhada e um pouco movediça. Para se ir à praia do mar era preciso atravessar um grande areal, por trás das barracas da praia da lagoa, cheio de pequenas dunas infestadas de vegetação característica da orla marítima, a “corta-mato”. Anos mais tarde, a praia do mar teve direito a meia dúzia de barracas brancas de longos bicos, sempre húmidas pela manhã, com a praia enclausurada em nevoeiro cerrado até ao meio-dia, pelo menos. Acedia-se-lhe através de uma escadaria íngreme perto do Hotel do Facho. No entanto, na época de que falo, ainda ninguém para lá ia e era um lugar lindíssimo, no seu estado inteiramente selvagem. A maré estava baixa e fomos chapinhando até um par de rochas: uma em forma de prisma semi-triangular, alta, ao lado de outra arredondada, mais baixinha. Ali ficámos sentados, cada um de nós imerso nos seus pensamentos, a olhar e a ouvir o mar perdido no horizonte, absortos na comunhão com a natureza. Não tenho ideia de quanto tempo passou, mas deve ter sido bastante. Quando demos por isso, o mar tinha-nos cercado, os rochedos estavam no meio de água já com alguma altura e só tínhamos disponível o cocoruto da rocha onde estivéramos sentados. O Mano inspeccionou as hipóteses de saída e viu que a melhor maneira era esgueirar-mo-nos por entre as duas rochas, onde a água não era ainda tão profunda como do outro lado, mais perigoso, aberto ao mar e à ondulação, cheio de pedras de tamanhos vários, e nadar depois até à praia. Ele, mais crescido, tinha pé, quase no limite. Eu, pequenota de uns seis ou sete anos, não. Também não era possível levar-me ao colo, porque o espaço era bastante estreito. Nunca fui menina de entrar em pânico (a não ser com bicharada nojenta) mas a situação era medonha, poderia ter despoletado uma reacção mais descontrolada da minha parte, sendo ainda tão novita e inexperiente. Felizmente reagi bem, embora não sem algum receio. Quando me perguntou se seria capaz de passar entre as rochas, escorreguei pela exígua fenda, com a água a bater-me no queixo trémulo, ele atrás de mim a guardar-me a retirada, e fiz o que tinha a fazer até chegar à areia.
Estávamos a salvo! Não me lembro de ter chorado e não era do meu feitio nem da minha educação fazer grandes berreiros. Provavelmente choraminguei. Nisso, era perita! Combinámos não contar nada aos Pais e eu senti-lhe a vergonha na voz, ao pedir-me segredo. O meu único receio era que, ao secar, ficassem manchas de sal no maillot e este se estragasse, porque não era suposto molhar-se em água salgada. O dia tinha acordado enevoado e frio e a Mãe, para prevenir, tinha-me vestido o maillot do ballet, de lã preta, muito fininho, que me protegeria melhor de possíveis constipações. Chegada a hora de ir nadar, este seria trocado por outro, próprio para banhos em salsas águas. Daria ela conta das manchas brancas do sal? Era melhor esfregá-lo com as mãos quando estivesse seca, para não chamar a atenção. E demos início ao regresso, calados, esmagados por aqueles rochedos que nos tinham perdido e, ao mesmo tempo, nos tinham ajudado.
Após longa caminhada, chegámos à praia da lagoa. Nem sei como os Pais não estranharam que eu não fosse a resmungar, mas nenhum de nós disse palavra sobre o sucedido. Mais tarde, o Mano não aguentou guardar segredo e despejou tudo. A consciência pesava-lhe, por ser o mais velho e ter sido descuidado, pondo-nos a ambos em perigo. Os Pais ficaram horrorizados com o relato mas não ralharam, uma vez que a verdade tinha sido exposta em toda a sua crueza.
Foi com valores assim que cresci, o que não me impediu de ser uma miúda rebelde. Muito provavelmente nesse mesmo dia, depois de andar duas horas ou mais dentro de água, fiz o que sempre fazia quando a Mãe, à beira da lagoa, chamava ”Graciiiiiiiiinha!”: virar-me de costas e tapar os ouvidos com os indicadores, fazendo-lhe saber, por esse modo pouco educado, que não ia acatar a ordem de sair sem resistência, nem que houvesse navalheiras para o lanche.
ADENDA: Só agora me lembrei que foi mais tarde que passámos a ficar na casa da Srª. Ricardina. Nos primeiros anos, íamos para a Pensão dos Olhos Pretos (ou Negros, um nome assim poético), quase no centro das Caldas. Um dia contarei outras histórias desse tempo.