quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


O COLÉGIO - II


Como em todos os lugares, não havia só pessoas más no "meu" colégio. O problema era que, no que às freiras dizia respeito, se contavam pelos dedos de uma mão.
Havia a Madre Santos, uma velhinha corcovada, pequenina e afável, que me dava Português. Depressa me tornei uma das suas preferidas, por ser uma das melhores das suas alunas. Foi ela quem me ensinou os fundamentos da língua-mãe e, se hoje sei pôr as minhas vírgulas nos lugares, a ela o devo. Excelente professora, eu fazia por corresponder às suas expectativas e quase todas as semanas recebia "prémios", que consistiam em cartõezinhos feitos com o maior desvelo, em cartolina, com frases motivadoras e um "santinho" recortado, à guisa de decoração, dos quais ainda conservo vários exemplares. Foi minha professora durante os dois primeiros anos.
No ano seguinte tive um estuporzinho que poderia ter morto o meu gosto pela leitura, se este não viesse de há muito, pelo que ficou intocado. Tinha a Madre Santos como referência para saber distinguir o trigo do joio e não misturar águas.
Retiraram a Madre Santos da docência devido à idade e aos achaques e, talvez dois anos mais tarde, recebi um convite para a visitar na sua cela, onde tomámos chá e ela inquiriu dos meus progressos nos estudos, numa bela tarde de conversa. Foi a primeira vez que transpus aquela porta, envolta em secretismo, que conduzia aos aposentos das freiras. Haveria de a atravessar ainda uma vez mais, para visitar outra das que foram minhas professoras, muitos anos depois, quando já me tinha tornado, eu própria, professora.
A Irmã-Enfermeira, de quem acho que nunca soube o nome, pois todas assim a chamavam, era um doce de pessoa que me ajudou a fazer a transição para o internato: quando fui internada de castigo estava-se no final do 1º período ou começo do 2º, todas as camaratas estavam cheias e eu fiquei interna na Enfermaria, onde dormia sozinha, excepto quando havia alguém doente. Escapei nesse ano aos escaldões, pois tomava duche numa banheira dos lavabos da Enfermaria, que só era usada por mim e pela Dona Antónia, que fazia parte dos quadros laicos do colégio e era uma espécie de educadora de infância.
À hora de deitar encontrava frequentemente, debaixo da almofada, um miminho da Irmã-Enfermeira. Da primeira vez, deixou-me um bilhetinho carinhoso em cima da dita, avisando-me da surpresa que me aguardava e pedindo segredo. Sempre que podia, surripiava algo da sobremesa do jantar para me trazer, e nada tinha que ver com o que nós, abjectas fedelhas cujos pais pagavam para ali estarmos, tínhamos por sobremesa. Eram dedos de dama, castanhas d'ovos, nozes de ovo e caramelo e outras delícias da doçaria conventual portuguesa, enquanto que nós, na melhor das hipóteses, tínhamos na mesa um prato com quatro bolachas geminadas (uma para cada) coladas por uns resquícios de geleia. A maior levava logo uma cuspidela por parte da colega mais afoita, assim que nos era dada licença para nos sentarmos, para que ninguém se atrevesse a comê-la. Eu, que sempre odiei nojices, ficava logo sem vontade de comer a sopa.
Ainda hoje não como "roupa velha", um dos pratos recorrentes naquele refeitório e, durante muitos anos, tive particular aversão por puré de batata, já que uma das "iguarias" que regularmente nos era servida consistia em puré de batata, que acompanhava um patareco mal-amanhado feito de (imagine-se!)... puré de batata rijo, com uma crosta tostada.
Enfim, consolava-me com os miminhos que, à noite, quase sempre me esperavam debaixo da almofada, e o cigarrito que fumava à janela da enfermaria que, convenientemente, dava para nenhures, tendo por baixo um telhado que me protegia de olhares indiscretos. Nunca aquela senhora me denunciou à directora e também nunca me disse uma palavra sobre os cigarros fumados às escondidas, mas era impossível que o não tivesse descoberto, por muitas precauções que eu tomasse.

Foram estas freiras duas das boas pessoas que tiveram influência no meu crescimento enquanto gente. A Madre Santos teve nas suas mãos o poder de reforçar o meu, já então, grande gosto pela literatura e pelo conhecimento da língua, e agarrou-o da melhor forma, sendo para mim mais um estímulo.
Acresce dizer que tive o sarampo muito tarde, aos doze anos, e deixou sequelas, agravando sobremaneira as minhas dificuldades respiratórias. De todas as professoras, a Madre Santos foi a única a dar conta do meu evidente desconforto na sala de aula. Ao aperceber-se do esforço que eu fazia para respirar, teve a atenção de me permitir assistir às aulas sentada no peitoril da janela, sempre que o tempo deixava. Nunca a esqueci e não ignoro o tanto que lhe devo!
Se uma andorinha não faz a Primavera, há andorinhas que adoçam os Invernos. 

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