domingo, 2 de dezembro de 2018

Doçuras e... travessuras

Foi em 1963 que mudámos de local de férias, da Figueira da Foz para as Caldas da Rainha, com idas a banhos à Foz do Arelho.
Ficámos, nesse ano, hospedados na Pensão dos Olhos Pretos. Sempre achei o nome poético e, nas passeatas nocturnas, conjecturávamos por vezes a quem pertenceriam os tais olhos. Lembro-me de escrever mentalmente umas quantas histórias sobre eles, nos minutos antes de adormecer, baseadas nas historietas fantásticas que então lia.
Numa breve olhadela pelo Google, verifiquei que ainda existe, com o nome Residencial Olhos Pretos e algumas críticas pouco elogiosas. O melhor que tem, dizem, é a localização central. De facto, era ali juntinho à Praça onde, ainda hoje, se comercializa logo pela manhã a fruta da região. Era uma boa pensão, à época. Nos dias de hoje, a julgar pelas fotografias, precisaria de mobiliário e decoração adequados, aproveitando os bonitos azulejos que tem de uma forma menos pindérica.

Cedo descobrimos, nesse primeiro ano, os agrados que as Caldas ofereciam. Perto da pensão achámos uma baiúca que, à noite (durante o dia, provavelmente, também, mas estávamos na praia) estava aberta, onde se vendiam as mães de todos os suspiros. Nada tinham a ver com os suspiros que conhecia ou viria a conhecer. A cor era diferente, e o tamanho, então... Gigantescos, para aí do tamanho de uma dúzia dos suspirecos que se vendem embalados em qualquer mercearia ou supermercado. É que aqueles suspiros tinham cor de caramelo e, por dentro, branquinhos, pareciam feitos de neve meio-derretida, com o merengue meloso e doce desafiando as papilas a cantar aleluias que nem os sinos da igreja da Senhora do Pópulo conseguiriam igualar. É minha convicção de que talvez fossem feitos com açúcar amarelo.
Claro que não no-los deixavam comer todos os dias, que aquilo era uma dose mortífera de açúcar, embora houvesse muito maior permissividade aos doces do que a que têm os pais mais modernos. Afinal, em minha casa, todas as sextas-feiras se faziam bolos e doces para toda a semana. Sobremesa era de regra, em refeições que consistiam quase sempre de sopa e dois pratos. Não sei onde metíamos tanta comida, nem como ainda tínhamos fome para lanches ou guloseimas nos intervalos!

Numa das ruas que desciam da Praça para o Parque, de um lado havia a Loja das Cavacas, que ficará para outra história, e várias lojas de louça das Caldas (não dessa em que estão a pensar), uma onde se vendiam apenas peças da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, outras onde se comercializava a cerâmica da SECLA e de outras pequenas fábricas familiares, de que falarei mais tarde.
Do outro lado da rua havia um rosário de pastelarias, quase pegadas umas às outras, com as mais variadas iguarias. Meus Pais elegeram uma, onde as mais das vezes entrávamos, quando as tardes se afiguravam incapazes de oferecer banhos e brincadeiras na areia, para um indulgente consolo. Nessa pastelaria fabricava-se um doce que não havia em lugar algum, segredo da dona, que o não passava a mais ninguém. Chamava-se “arrelia” e consistia numa simples fatia de torta. Fatias desse tempo, note-se, com cerca de um centímetro de espessura, não da grossura desmesurada das fatias que nos servem em qualquer pastelaria nos dias de hoje, por muitas vezes o preço daquelas. Bastava. Era tão deleitosa, aquela torta, cuja receita provinha decerto de segredo conventual, que a magra fatia era suficiente para nos deixar a sonhar com o paraíso. “Arrelias destas queria eu ter todos os dias!”, exclamava minha Mãe depois de a saborear. A torta, muito húmida, devia levar um ror de ovos, claro, um “everest” de açúcar e também alguma amêndoa finamente moída. Em vão minha Mãe tentou obter dicas sobre os ingredientes, para tentar reproduzi-la em casa.
Numa pastelaria mais acima entrávamos, muito espaçadamente, para consumar o pecado da gula consubstanciado numa trouxa d’ovos. Bastante mais caras que qualquer outro pastel, sabíamos que só de longe em longe nos era oferecido esse prazer. As capas de ovo da espessura de folhas de papel de seda sobrepostas, formando um pequeno canudo envolvido pela calda apurada a ponto de pérola e queimado com ferro, custavam 2$50. Vinte e cinco tostões era carote! Comíamos devagar, em pequenos pedacinhos, fazendo durar a volúpia o quanto podíamos, para terminar lambuzando-nos com a aromática calda.

Havia ainda outro ponto de interesse, um tanto prosaico: um carrinho de pipocas que estacionava todas as noites na praça onde desembocávamos, após a “volta dos tristes” pela Rua das Montras. Ali, um velho vendedor apregoava os jornais do dia, numa voz enrouquecida e com uma dicção peculiar, terminando o pregão com o Diário de Lisboa, como se dissesse “Peles de Coelho”. O que nos ríamos, de ouvido à escuta, esperando o final da ladaínha!
O carrinho do vendedor de pipocas exercia sobre mim um grande fascínio, não tanto pelo produto mas pelo processo de produção. Em casa, as pipocas chamavam-se “freiras” e eram feitas num pequeno “forno” embutido na parede exterior da cozinha, um buraco abobadado na parede que confinava com o quintal, onde se preparavam, por vezes, as brasas para a braseira, quando eu não as ia buscar, num caldeiro, à carvoeira que as fazia, do outro lado da rua. O milho rebentava e era preciso apartá-lo de imediato com uma pequena pá, para que não ficasse a saber a chamusco. No carrinho não havia nada disso, as pipocas iam crescendo vidro acima, loiras e gordas, e chegavam-nos num cartuchinho, temperadas com sal. Ainda não tinha nascido a moda das pipocas doces, caramelizadas, com aromas, manteiga e sei lá que mais, de que nunca gostei por aí além, porque a minha referência eram essas pipocas salgadas do primeiro carrinho que vi.

Ora, no Verão seguinte, já eu era conhecedora de todas as maravilhas que iria encontrar nas Caldas e tratei de me prevenir, guardando o dinheirito que me foram dando durante o ano. Era bastante gulosa (ainda sou) e gostava de rebuçados e chupa-chupas, que havia em abundância na modesta aldeia onde vivia. Não eram caros: rebuçados a meio-tostão, um ou dois tostões por um chupa-chupa caseiro de caramelo que era um monumento à gulodice. Gastei o menos possível, a pensar nos doces e “Rajás” de ananás com que haveria de me regalar nas férias.
Nesse ano fomos para uma casa particular, em que a dona se encarregava da limpeza e da comida, podendo assim minha Mãe escolher o que queria para as nossas refeições. Tratei de arranjar um escaninho no quarto para a “pataca”, onde guardava toda a minha “fortuna”. Tinham-me oferecido, provavelmente no Natal anterior, um pequeno porta-moedas em forma de sapatinho vagamente cinderélico, onde pouco cabia, mas também não era muito o que tinha.
O porta-moedas! Hoje exposto na beira de uma estante, a lembrar histórias.

Meu Irmão era o farejador de esconderijos oficial lá de casa. Esperava por ele, estudante no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, sempre com ansiedade. Nas férias de Natal, pedia-lhe que descobrisse onde estavam escondidos os presentes e os frutos secos e outros ingredientes gulosos necessários à preparação dos doces da quadra, que minha Mãe colocava fora do alcance de mãozinhas atrevidas. Levava-o à despensa e indicava-lhe os lugares, nas altas prateleiras, onde tinha visto minha Mãe guardar coisas. Ele, que nem furão, encontrava tudo. Subtraíamos uma parte, que era distribuída por ele, por mim e pelo Pai e, quando a Mãe dava conta, já nos tínhamos aboletado com algumas nozes, amêndoas, passas , avelãs, etc. Era o nosso maná, e minha Mãe ria à socapa, pois contava com isso quando abastecia a despensa para o Inverno.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Memórias travessas

Porque a memória gosta de nos pregar partidas. Quanto mais tempo passa, mas travessa se torna.
 
Encontramos (quantas vezes!) folhas rasgadas, fendidas, amarfanhadas, nos cadernos da vida. Folhas de que não tínhamos memória, entaladas nas gavetas do fundo devido a um erro ao fechá-las. Ficam lá durante eternidades e, um dia, ao tentarmos abrir a gaveta, esta empanca e recusa-se a revelar os seus segredos. Com um puxão, descobrimos a criminosa folha, rasgada, sangrando. Pegamos-lhe e, com desvelo, empenhamo-nos em recuperá-la. Cosemos os pedaços de histórias que ainda recordamos, procuramos pequenos fragmentos esmagados nos entalhes, colamos, cerzimos, arriscamos aplicar-lhe o brilho perdido, na tentiva de a devolver ao estado original. Umas vezes conseguimos ajustar todos os pormenores, outras vezes falhamos, e já não há quem nos possa ajudar a reconstituir tudo.
Este é um blog de memórias travessas, obstinadas em permanecer vivas, apesar dos entalões da memória. Serão, algumas, menos correctas, devido a falhas involuntárias; outras, falseadas por construções romanceadas que se foram avolumando nos recantos das recordações.
Mas não são assim, subjectivas, todas as memórias? Vistas por outrém, teriam talvez outras cores, outros contornos, outro ponto de vista. Este é o meu modo de as olhar, há muitos anos, quando era criança, em contraponto com a compreensão das coisas que o tempo, esse assassino de lembranças, nos traz.
 
 
By Liliane Porter