O COLÉGIO - I
Dos 10 aos 15 anos frequentei um colégio das Irmãs Doroteias, do qual conservo várias das amizades que lá fiz. Se umas acham que foram bons tempos e gostaram de lá andar, eu, pelo contrário, considero que passei lá quase 5 anos de degredo.
É verdade que ali não havia abusos sexuais, mas houve abusos de outros tipos, que marcaram para todo o sempre a minha personalidade e trouxeram, a determinada altura, ao de cima, o pior que dentro de mim havia. Felizmente que esse mal não era tão mau quanto isso e tive o discernimento suficiente para o canalizar para boas direcções.
Logo para começo, era abusivo que nos tratassem por um número, como se fôssemos prisioneiras (que o éramos, de facto!). Das poucas vezes que alguém tentou chamar-me um número, ignorei placidamente, como se fora surda, para perceberem que eu tinha um nome. Nessa altura, com 10 ou 11 anos, eu ainda não sabia que tatuavam números nos braços dos prisioneiros dos campos de concentração, mas sabia que os presos tinham números e não queria ser tratada como um qualquer irmão Metralha. Bastavam as fardas!
Abusos psicológicos eram prática constante e um contraste flagrante com a religião que pregavam. Não admira que, em pouco tempo, me tivesse tornado agnóstica e, mais tarde, ateia.
Não andava ali para ver passar os aviões, reparava em pequenos pormenores que me foram dando a certeza de que não estava a lidar com pessoas de boa-fé e que precisava de ser astuta e ter o máximo cuidado para não acabar esmagada como um mosquito. Claro que tudo isso desenvolveu em mim uma rebeldia que poderia ter ficado no limbo onde estivera guardada até então, e que veio à tona em toda a sua glória. Daí a ser castigada com quase dois anos de internato foi um pequeno passo.
Experimentei então, como aluna interna, os abusos físicos. Não, as freiras não usavam castigos corporais como punição. Eram mais diabólicas. Descarregavam as suas frustrações através de tortura física dissimulada, como por exemplo fechar-nos a torneira da água fria passados 3 a 5 minutos de termos entrado no duche. Depois do escaldão, ainda era preciso ter coragem para tentar tirar a espuma que nos cobria o corpo. No pino do Inverno também nos fechavam a torneira da água quente, mas isso aguentava-se melhor. Os lavatórios só tinham água fria e fartei-me de lavar lá o cabelo, quando saía do duche, escaldada, sem ter tido tempo para o fazer.
Depois, havia as regras. Regras para tudo, até para andar. Algumas delas estavam mesmo a pedir para serem infringidas. Éramos crianças, que diabo! Qualquer infracção das regras era justa causa para humilhação, nem que fosse a de ficar na capela de joelhos, por tempo indeterminado, com os braços abertos como se fôssemos cristos pregados em cruzes.
Por isso as nossas carinhas eram sempre tristes e apagadas, não havia lugar a gargalhadas francas. Eu, que sempre fui dada à risota, teimei em nunca deixar apagar o riso dos meus lábios. Ria, à socapa, mas ria.
Havia ainda as gritantes diferenças sociais, que as freiras faziam questão de acentuar com veemência. Subia-me uma grande revolta quando as via humilhar as que estavam ali "de favor" e ficava mais revoltada ainda por nada poder fazer por elas, que aceitavam, submissas, mais uma e outra humilhação, mesmo a de não terem licença para brincar, como todas as outras. Revoltarem-se significaria a volta a casa e mais uma boca para os pais alimentarem.
Era triste, a vida no colégio. Suponho que deva agradecer às freiras por me terem mostrado a falsidade e a maldade, para poder escolher não ser como elas.
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