domingo, 30 de junho de 2019







O COLÉGIO - III


Sonhei que tinha, finalmente, descoberto o nome da minha primeira Professora de Francês e que, a acreditar no apelido, ela era, afinal, filha de uma freira que posteriormente me deu aulas. 
Sonhos, esses malévolos produtores de realidades paralelas! 
Bem queria lembrar-me do nome dessa senhora, mas perdeu-se-me nos refegos da memória. Penso recordar-me de que era esposa de um militar e, por esse facto, provavelmente esteve só de passagem, naqueles dois anos. Desde que deixou de leccionar no colégio, nunca mais a vi.
Morena, usava os fartos cabelos negro-corvo presos num rolo na base, um pouco à moda dos anos 40, ou apertados num chignon. Vestia sempre tailleurs tipo Chanel, discretos e elegantes, em tons suaves, com camisas sedosas cor de creme ou de outra cor igualmente neutra, porém ornadas de um laço, uns folhos, ou mesmo um jabot. Eu admirava-lhe a elegância simples, o modo cordato e o Francês impecável.
Já não sei pôr de pé todos os pormenores daquele dia. Passou muito tempo desde que eu tinha doze anos, e a memória tem o estúpido hábito de só fixar o que bem lhe parece, embora tenha retido o mais importante.
Numa aula, a minha coleguinha de carteira, uma menina com síndrome de Down, disse qualquer coisa, não sei se em resposta a uma pergunta da professora. Eu, que já nessa altura usava de um humor um tanto a atirar para o negro, fiz uma qualquer observação jocosa. Em bom Português, saiu-me uma piada parva (ainda hoje acontece, por vezes, embora tente refrear a língua quando me chegam esses repentes). Para minha consternação, a professora parou a aula e, em tom calmo, chamou-me à atenção, condenando o que eu acabara de fazer. Protestei que não o tinha feito com má intenção, que era amiga da minha colega e não era meu desígnio magoá-la. A senhora, por outras palavras, explicou-me que de boas intenções estaria o inferno cheio e pediu-me delicadamente que saísse e aproveitasse o tempo que restava da aula para pensar no que tinha dito e nas consequências da minha graçola, tivesse a minha colega capacidade para a entender.
Fui para o corredor e lá fiquei, a remoer no que se havia passado e no modo leviano como eu via, até então, a questão das diferenças. Fez-me bem, esse tempo de reflexão, para o resto da vida! Consternada, percebi que tinha cometido uma injustiça para com alguém que não tinha como se defender, nem que fosse com uma chalaça parva como a minha. Eu, que me prezava de ser uma pessoa correcta, tinha errado, justamente com alguém de quem me considerava amiga.
Acabada a aula, entrei para pedir desculpas e para dar conta à professora de que tinha entendido a verdadeira dimensão do meu erro. Pedi também perdão à minha amiga, que se me lançou ao pescoço e me cobriu de beijos. Durante o resto do ano, foi assim que andou, sempre enlaçada a mim. Desde aquele dia, armada em sua defensora, fiz questão de não permitir que mais alguém a magoasse.
A história não ficou por aqui. Na aula seguinte, a professora pediu-me que ficasse um pouco mais no final e ofereceu-me um cartãozinho com um poema, que ainda conservo num envelope, juntamente com as outras boas, mas poucas, recordações dos tempos do colégio. O poema, “La bonté”, que se reproduz acima, era de François Andrieux (1759 - 1833), um magistrado, dramaturgo e poeta francês, que chegou a ter um cargo do governo no início da Revolução, tendo-se afastado quando começou o Terror. Li-o, com as lágrimas rolando cara abaixo, e reli-o depois vezes sem conto.
Foi o último ano em que essa senhora deu aulas naquele colégio e tenho pena de nunca mais a ter encontrado. Para além de me ter ensinado os fundamentos do Francês, que me ficaram para sempre, deu-me uma lição para a vida.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


O COLÉGIO - II


Como em todos os lugares, não havia só pessoas más no "meu" colégio. O problema era que, no que às freiras dizia respeito, se contavam pelos dedos de uma mão.
Havia a Madre Santos, uma velhinha corcovada, pequenina e afável, que me dava Português. Depressa me tornei uma das suas preferidas, por ser uma das melhores das suas alunas. Foi ela quem me ensinou os fundamentos da língua-mãe e, se hoje sei pôr as minhas vírgulas nos lugares, a ela o devo. Excelente professora, eu fazia por corresponder às suas expectativas e quase todas as semanas recebia "prémios", que consistiam em cartõezinhos feitos com o maior desvelo, em cartolina, com frases motivadoras e um "santinho" recortado, à guisa de decoração, dos quais ainda conservo vários exemplares. Foi minha professora durante os dois primeiros anos.
No ano seguinte tive um estuporzinho que poderia ter morto o meu gosto pela leitura, se este não viesse de há muito, pelo que ficou intocado. Tinha a Madre Santos como referência para saber distinguir o trigo do joio e não misturar águas.
Retiraram a Madre Santos da docência devido à idade e aos achaques e, talvez dois anos mais tarde, recebi um convite para a visitar na sua cela, onde tomámos chá e ela inquiriu dos meus progressos nos estudos, numa bela tarde de conversa. Foi a primeira vez que transpus aquela porta, envolta em secretismo, que conduzia aos aposentos das freiras. Haveria de a atravessar ainda uma vez mais, para visitar outra das que foram minhas professoras, muitos anos depois, quando já me tinha tornado, eu própria, professora.
A Irmã-Enfermeira, de quem acho que nunca soube o nome, pois todas assim a chamavam, era um doce de pessoa que me ajudou a fazer a transição para o internato: quando fui internada de castigo estava-se no final do 1º período ou começo do 2º, todas as camaratas estavam cheias e eu fiquei interna na Enfermaria, onde dormia sozinha, excepto quando havia alguém doente. Escapei nesse ano aos escaldões, pois tomava duche numa banheira dos lavabos da Enfermaria, que só era usada por mim e pela Dona Antónia, que fazia parte dos quadros laicos do colégio e era uma espécie de educadora de infância.
À hora de deitar encontrava frequentemente, debaixo da almofada, um miminho da Irmã-Enfermeira. Da primeira vez, deixou-me um bilhetinho carinhoso em cima da dita, avisando-me da surpresa que me aguardava e pedindo segredo. Sempre que podia, surripiava algo da sobremesa do jantar para me trazer, e nada tinha que ver com o que nós, abjectas fedelhas cujos pais pagavam para ali estarmos, tínhamos por sobremesa. Eram dedos de dama, castanhas d'ovos, nozes de ovo e caramelo e outras delícias da doçaria conventual portuguesa, enquanto que nós, na melhor das hipóteses, tínhamos na mesa um prato com quatro bolachas geminadas (uma para cada) coladas por uns resquícios de geleia. A maior levava logo uma cuspidela por parte da colega mais afoita, assim que nos era dada licença para nos sentarmos, para que ninguém se atrevesse a comê-la. Eu, que sempre odiei nojices, ficava logo sem vontade de comer a sopa.
Ainda hoje não como "roupa velha", um dos pratos recorrentes naquele refeitório e, durante muitos anos, tive particular aversão por puré de batata, já que uma das "iguarias" que regularmente nos era servida consistia em puré de batata, que acompanhava um patareco mal-amanhado feito de (imagine-se!)... puré de batata rijo, com uma crosta tostada.
Enfim, consolava-me com os miminhos que, à noite, quase sempre me esperavam debaixo da almofada, e o cigarrito que fumava à janela da enfermaria que, convenientemente, dava para nenhures, tendo por baixo um telhado que me protegia de olhares indiscretos. Nunca aquela senhora me denunciou à directora e também nunca me disse uma palavra sobre os cigarros fumados às escondidas, mas era impossível que o não tivesse descoberto, por muitas precauções que eu tomasse.

Foram estas freiras duas das boas pessoas que tiveram influência no meu crescimento enquanto gente. A Madre Santos teve nas suas mãos o poder de reforçar o meu, já então, grande gosto pela literatura e pelo conhecimento da língua, e agarrou-o da melhor forma, sendo para mim mais um estímulo.
Acresce dizer que tive o sarampo muito tarde, aos doze anos, e deixou sequelas, agravando sobremaneira as minhas dificuldades respiratórias. De todas as professoras, a Madre Santos foi a única a dar conta do meu evidente desconforto na sala de aula. Ao aperceber-se do esforço que eu fazia para respirar, teve a atenção de me permitir assistir às aulas sentada no peitoril da janela, sempre que o tempo deixava. Nunca a esqueci e não ignoro o tanto que lhe devo!
Se uma andorinha não faz a Primavera, há andorinhas que adoçam os Invernos. 
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O COLÉGIO - I

Dos 10 aos 15 anos frequentei um colégio das Irmãs Doroteias, do qual conservo várias das amizades que lá fiz. Se umas acham que foram bons tempos e gostaram de lá andar, eu, pelo contrário, considero que passei lá quase 5 anos de degredo.

É verdade que ali não havia abusos sexuais, mas houve abusos de outros tipos, que marcaram para todo o sempre a minha personalidade e trouxeram, a determinada altura, ao de cima, o pior que dentro de mim havia. Felizmente que esse mal não era tão mau quanto isso e tive o discernimento suficiente para o canalizar para boas direcções.

Logo para começo, era abusivo que nos tratassem por um número, como se fôssemos prisioneiras (que o éramos, de facto!). Das poucas vezes que alguém tentou chamar-me um número, ignorei placidamente, como se fora surda, para perceberem que eu tinha um nome. Nessa altura, com 10 ou 11 anos, eu ainda não sabia que tatuavam números nos braços dos prisioneiros dos campos de concentração, mas sabia que os presos tinham números e não queria ser tratada como um qualquer irmão Metralha. Bastavam as fardas!
Abusos psicológicos eram prática constante e um contraste flagrante com a religião que pregavam. Não admira que, em pouco tempo, me tivesse tornado agnóstica e, mais tarde, ateia. 
Não andava ali para ver passar os aviões, reparava em pequenos pormenores que me foram dando a certeza de que não estava a lidar com pessoas de boa-fé e que precisava de ser astuta e ter o máximo cuidado para não acabar esmagada como um mosquito. Claro que tudo isso desenvolveu em mim uma rebeldia que poderia ter ficado no limbo onde estivera guardada até então, e que veio à tona em toda a sua glória. Daí a ser castigada com quase dois anos de internato foi um pequeno passo.
Experimentei então, como aluna interna, os abusos físicos. Não, as freiras não usavam castigos corporais como punição. Eram mais diabólicas. Descarregavam as suas frustrações através de tortura física dissimulada, como por exemplo fechar-nos a torneira da água fria passados 3 a 5 minutos de termos entrado no duche. Depois do escaldão, ainda era preciso ter coragem para tentar tirar a espuma que nos cobria o corpo. No pino do Inverno também nos fechavam a torneira da água quente, mas isso aguentava-se melhor. Os lavatórios só tinham água fria e fartei-me de lavar lá o cabelo, quando saía do duche, escaldada, sem ter tido tempo para o fazer.
Depois, havia as regras. Regras para tudo, até para andar. Algumas delas estavam mesmo a pedir para serem infringidas. Éramos crianças, que diabo! Qualquer infracção das regras era justa causa para humilhação, nem que fosse a de ficar na capela de joelhos, por tempo indeterminado, com os braços abertos como se fôssemos cristos pregados em cruzes.
Por isso as nossas carinhas eram sempre tristes e apagadas, não havia lugar a gargalhadas francas. Eu, que sempre fui dada à risota, teimei em nunca deixar apagar o riso dos meus lábios. Ria, à socapa, mas ria.
Havia ainda as gritantes diferenças sociais, que as freiras faziam questão de acentuar com veemência. Subia-me uma grande revolta quando as via humilhar as que estavam ali "de favor" e ficava mais revoltada ainda por nada poder fazer por elas, que aceitavam, submissas, mais uma e outra humilhação, mesmo a de não terem licença para brincar, como todas as outras. Revoltarem-se significaria a volta a casa e mais uma boca para os pais alimentarem.
Era triste, a vida no colégio. Suponho que deva agradecer às freiras por me terem mostrado a falsidade e a maldade, para poder escolher não ser como elas.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019





Nascida em 1923, minha Mãe faria hoje 96 anos. Chegou aos 90, meta a que muitos não chegam, mas pouco tempo mais viveu depois do seu último aniversário, já no hospital, ao qual não assisti sequer (o único em toda a minha vida!), estando eu bastante doente em casa com um vírus que apanhei, enquanto esperava nas urgências que tratassem dela.

Sendo uma pessoa que, geralmente, não estava de muito boas relações com a vida, havia momentos em que via minha Mãe completamente descontraída e feliz: quando tinha entre mãos as suas agulhas. Fosse a fazer crochet ou a coser, o prazer era igual. Adorava criar, e tinha esse dom da criação, tanto a cerzir um buraquinho numa toalha como a espalhar uma miríade de flores numa camisola que as traças tinham chamado sua ou a elaborar uma fatiota nova.
Enquanto éramos pequenos, a nossa roupa era confeccionada por ela. Certo é que não havia lojas de pronto a vestir como há hoje e vivíamos numa aldeia; porém, era algo que lhe dava prazer e em que investia, fazendo a ronda das lojas de tecidos e das retrosarias quando passávamos os fins-de-semana em Coimbra e sempre que íamos a Lisboa visitar os Tios. Era de regra entrarmos na Casa dos Enxovais, na Casa dos Linhos e na Retrosaria Custódio, onde a tratavam pelo nome, com muitas mesuras pelo meio.
Um dia por semana, tinha a ajuda de uma costureira, mais por causa da tesoura, com a qual não se sentia tão à vontade, e para dar vazão ao muito que havia sempre a fazer no tratamento, confecção e manutenção das roupas, tanto nossas como de casa.
Na altura da minha infância, a costureira que ia lá a casa era a senhora Maria Vitória, que enviuvara bastante nova e complementava a pequena pensão que recebia do Exército, por morte do marido, com trabalhos de costura; uma senhora também criativa e arejada, que ajudava a Mãe a realizar as suas ideias mais inovadoras. Antes das principais estações do ano, compravam-se os figurinos, acima de tudo para ver e tirar ideias, não tanto para copiar modelos, e principiavam a executar-se as roupas necessárias a cada estação, por vezes consistindo apenas em adaptações, se havia tecido nas costuras e bainhas. Lembro-me de certa vez (era eu bem pequena,entre os 3 e os 4 anos) em que havia vários vestidos em fase de acabamento que era preciso provar. A senhora Maria Vitória pôs-me em cima da mesa e eu, com um ar inchado de felicidade, pedi-lhe: "Sirva-me todos!". A partir de então, sempre que me via, mesmo passados muitos anos, a senhora Maria Vitória repetia a minha frase com um largo sorriso nos lábios.
Entendiam-se as duas às mil maravilhas, conversavam enquanto iam costurando, a Mãe dava uma ideia aqui e ali e as roupas nasciam com facilidade, muitas vezes reaproveitando tecidos de outras que tinham deixado de servir, pois que as crianças crescem no espaço de um relâmpago. Recordo vestidinhos com peitilhos em "favo de mel", casacos e camisolas de lã que a Mãe tricotava ao serão na sua máquina, as batas para proteger a roupa, bordadas com cerejinhas e outros motivos infantis e tantos outros miminhos de bom gosto que usei ao longo da vida, concebidos por ela.
Como pessoa criativa que era, andava muitas vezes à frente do seu tempo. Uma ocasião, nas vésperas de um Inverno frio e chuvoso como eram então os Invernos que se prezavam, teve a ideia de me fazer um casaco de alamares com capuz, que muito mais tarde virariam moda, embora diferentes do meu, que era tricotado numa bonita e quentinha lã escarlate. Fez o casaco, com bolsos (para mim, tudo tinha que ter bolsos, para meter pedrinhas e outras porcarias que encontrava no chão!), na máquina de tricotar e forrou-o todo com um 'plaid' de fundo preto, atravessado por risquinhas vermelhas, verdes, brancas e amarelas. Com o tecido sobrante, confeccionou umas calças, para que eu andasse quente enquanto brincava na rua. Nessa época, em 1960, uma menina não vestia calças! Era a única miúda da aldeia que tinha umas calças; os moços gritavam-me palavrões e epítetos variados, mas aturava-lhes os remoques com indiferença. Adorava andar de calças, que se tornaram, por várias razões, o principal componente do meu guarda-roupa, e talvez venha daí o meu gosto por peças de roupa um tanto diferentes. Dois ou três anos mais tarde, num Verão, a Mãe fez-me umas calças 'à pirata', num lindo tecido azul-turquesa, apertadas com fivela na perna, que eram um mimo e justificavam plenamente o nome de "pirata" que meu Pai me dava desde pequenita. Se estavam para lavar, era um desgosto, e já não queria vestir outra coisa.
Cresci, assim, no meio de coisas bonitas feitas pela minha Mãe, nas máquinas de costura e de tricotar ou com os seus sábios dedos e as agulhas de crochet e de coser. Construía com as mãos o mundo onde se sentia feliz.
Já mais para o final da vida, antes de a doença lhe entorpecer o cérebro, viu numa revista uns penduricalhos em crochet para as portas dos armários ou gavetas de cómodas e fez alguns. Já não tinha paciência para trabalhos demorados e havia mais roupas do que sítios onde as guardar, de modo que aquilo era perfeito para ocupar o tempo e tinha a vantagem de se fazer depressa. Veio-lhe então a ideia de fabricar uns penduricalhos para as garrafas de vinho. Fez centenas deles, que foi oferecendo às pessoas de quem gostava, aprimorando a técnica e desenvolvendo novas ideias. Eu comprava-lhe linhas finas de vários tons na retrosaria e ela ia compondo cachinhos de uvas, tintas e brancas, mais ou menos maduras; depois, introduziu-lhes gavinhas, cujo suporte eu preparava, com fio de cobre fininho e um alicate.
A certa altura partiu um braço, que foi imobilizado durante uns meses. A fractura tinha sido grave e era necessário que conservasse o braço quieto, pois havia o risco de necrose se a coisa começasse a dar para o torto. Nem assim! Mal se sentiu capaz de mexer a mão, vá de fazer bolinhas de crochet. Só me chamava para enrolar as bolas de algodão que lhes metia dentro. Como não era ainda capaz de compor os cachos, foi fazendo "uvas" e metendo numa caixa, que logo ficou vazia quando, finalmente, se viu livre das ligaduras que a peavam.  Criou dezenas de variantes e, a certa altura, fez-me um conjunto de cachos com todas elas, que guardei religiosamente. Mais tarde, depois da chegada da gata, fazia também bolinhas de crochet para ela brincar.
Já a doença lhe minava o cérebro, embora ainda fosse ocupando os ócios com o crochet, quis oferecer umas pendurezas dessas a pessoa amiga e pediu-me se lhe cedia os cachos que tinha feito para mim, que iria repondo mais tarde. Fui parva e deixei. Nunca foram repostos, pois entretanto a deterioração tinha progredido depressa. No último Verão que passámos na praia, em que já estava num estado de grande agitação, sugeri-lhe que fizesse uns cachos de uvas, para ver se acalmava. Respondeu-me que ainda não era altura de estarem maduras.
Sobraram-me apenas dois, os primeiros dos muitos que fez, um deles incompleto.


Feliz aniversário, Mamã! Os teus dotes não estão esquecidos; guardo-os com todo o cuidado, como guardo as memórias no coração.