sábado, 1 de dezembro de 2018

Memórias travessas

Porque a memória gosta de nos pregar partidas. Quanto mais tempo passa, mas travessa se torna.
 
Encontramos (quantas vezes!) folhas rasgadas, fendidas, amarfanhadas, nos cadernos da vida. Folhas de que não tínhamos memória, entaladas nas gavetas do fundo devido a um erro ao fechá-las. Ficam lá durante eternidades e, um dia, ao tentarmos abrir a gaveta, esta empanca e recusa-se a revelar os seus segredos. Com um puxão, descobrimos a criminosa folha, rasgada, sangrando. Pegamos-lhe e, com desvelo, empenhamo-nos em recuperá-la. Cosemos os pedaços de histórias que ainda recordamos, procuramos pequenos fragmentos esmagados nos entalhes, colamos, cerzimos, arriscamos aplicar-lhe o brilho perdido, na tentiva de a devolver ao estado original. Umas vezes conseguimos ajustar todos os pormenores, outras vezes falhamos, e já não há quem nos possa ajudar a reconstituir tudo.
Este é um blog de memórias travessas, obstinadas em permanecer vivas, apesar dos entalões da memória. Serão, algumas, menos correctas, devido a falhas involuntárias; outras, falseadas por construções romanceadas que se foram avolumando nos recantos das recordações.
Mas não são assim, subjectivas, todas as memórias? Vistas por outrém, teriam talvez outras cores, outros contornos, outro ponto de vista. Este é o meu modo de as olhar, há muitos anos, quando era criança, em contraponto com a compreensão das coisas que o tempo, esse assassino de lembranças, nos traz.
 
 
By Liliane Porter

9 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Parabéns Graça, vou ler sempre os teus textos. Gosta da tua maneira agradável de abordares os temas, muitas vezes que nos trazem memórias longínquas...

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  3. Gostei muito Graça! Parabéns e sucesso!

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    1. Muito obrigada, João. Queria adicionar o seu blog ali de ladecos, como vejo nos blogs de outras pessoas, mas ainda não aprendi como fazer. Lá chegarei! :)

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  4. Há uns tempos que ando para reavivar a chama do meu antigo blog, mas prefiro não remexer nessas gavetas. Porventura me aventuraria num novo, e este da Graça poderia ser o rastilho, porque também eu tenho tantas folhas entaladas na gaveta das recordações...

    Victor Peres

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