Sonhei que tinha, finalmente, descoberto o nome da minha primeira Professora de Francês e que, a acreditar no apelido, ela era, afinal, filha de uma freira que posteriormente me deu aulas.
Sonhos, esses malévolos produtores de realidades paralelas!
Bem queria lembrar-me do nome dessa senhora, mas perdeu-se-me nos refegos da memória. Penso recordar-me de que era esposa de um militar e, por esse facto, provavelmente esteve só de passagem, naqueles dois anos. Desde que deixou de leccionar no colégio, nunca mais a vi.
Morena, usava os fartos cabelos negro-corvo presos num rolo na base, um pouco à moda dos anos 40, ou apertados num chignon. Vestia sempre tailleurs tipo Chanel, discretos e elegantes, em tons suaves, com camisas sedosas cor de creme ou de outra cor igualmente neutra, porém ornadas de um laço, uns folhos, ou mesmo um jabot. Eu admirava-lhe a elegância simples, o modo cordato e o Francês impecável.
Já não sei pôr de pé todos os pormenores daquele dia. Passou muito tempo desde que eu tinha doze anos, e a memória tem o estúpido hábito de só fixar o que bem lhe parece, embora tenha retido o mais importante.
Numa aula, a minha coleguinha de carteira, uma menina com síndrome de Down, disse qualquer coisa, não sei se em resposta a uma pergunta da professora. Eu, que já nessa altura usava de um humor um tanto a atirar para o negro, fiz uma qualquer observação jocosa. Em bom Português, saiu-me uma piada parva (ainda hoje acontece, por vezes, embora tente refrear a língua quando me chegam esses repentes). Para minha consternação, a professora parou a aula e, em tom calmo, chamou-me à atenção, condenando o que eu acabara de fazer. Protestei que não o tinha feito com má intenção, que era amiga da minha colega e não era meu desígnio magoá-la. A senhora, por outras palavras, explicou-me que de boas intenções estaria o inferno cheio e pediu-me delicadamente que saísse e aproveitasse o tempo que restava da aula para pensar no que tinha dito e nas consequências da minha graçola, tivesse a minha colega capacidade para a entender.
Fui para o corredor e lá fiquei, a remoer no que se havia passado e no modo leviano como eu via, até então, a questão das diferenças. Fez-me bem, esse tempo de reflexão, para o resto da vida! Consternada, percebi que tinha cometido uma injustiça para com alguém que não tinha como se defender, nem que fosse com uma chalaça parva como a minha. Eu, que me prezava de ser uma pessoa correcta, tinha errado, justamente com alguém de quem me considerava amiga.
Acabada a aula, entrei para pedir desculpas e para dar conta à professora de que tinha entendido a verdadeira dimensão do meu erro. Pedi também perdão à minha amiga, que se me lançou ao pescoço e me cobriu de beijos. Durante o resto do ano, foi assim que andou, sempre enlaçada a mim. Desde aquele dia, armada em sua defensora, fiz questão de não permitir que mais alguém a magoasse.
A história não ficou por aqui. Na aula seguinte, a professora pediu-me que ficasse um pouco mais no final e ofereceu-me um cartãozinho com um poema, que ainda conservo num envelope, juntamente com as outras boas, mas poucas, recordações dos tempos do colégio. O poema, “La bonté”, que se reproduz acima, era de François Andrieux (1759 - 1833), um magistrado, dramaturgo e poeta francês, que chegou a ter um cargo do governo no início da Revolução, tendo-se afastado quando começou o Terror. Li-o, com as lágrimas rolando cara abaixo, e reli-o depois vezes sem conto.
Foi o último ano em que essa senhora deu aulas naquele colégio e tenho pena de nunca mais a ter encontrado. Para além de me ter ensinado os fundamentos do Francês, que me ficaram para sempre, deu-me uma lição para a vida.

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