terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
Nascida em 1923, minha Mãe faria hoje 96 anos. Chegou aos 90, meta a que muitos não chegam, mas pouco tempo mais viveu depois do seu último aniversário, já no hospital, ao qual não assisti sequer (o único em toda a minha vida!), estando eu bastante doente em casa com um vírus que apanhei, enquanto esperava nas urgências que tratassem dela.
Sendo uma pessoa que, geralmente, não estava de muito boas relações com a vida, havia momentos em que via minha Mãe completamente descontraída e feliz: quando tinha entre mãos as suas agulhas. Fosse a fazer crochet ou a coser, o prazer era igual. Adorava criar, e tinha esse dom da criação, tanto a cerzir um buraquinho numa toalha como a espalhar uma miríade de flores numa camisola que as traças tinham chamado sua ou a elaborar uma fatiota nova.
Enquanto éramos pequenos, a nossa roupa era confeccionada por ela. Certo é que não havia lojas de pronto a vestir como há hoje e vivíamos numa aldeia; porém, era algo que lhe dava prazer e em que investia, fazendo a ronda das lojas de tecidos e das retrosarias quando passávamos os fins-de-semana em Coimbra e sempre que íamos a Lisboa visitar os Tios. Era de regra entrarmos na Casa dos Enxovais, na Casa dos Linhos e na Retrosaria Custódio, onde a tratavam pelo nome, com muitas mesuras pelo meio.
Um dia por semana, tinha a ajuda de uma costureira, mais por causa da tesoura, com a qual não se sentia tão à vontade, e para dar vazão ao muito que havia sempre a fazer no tratamento, confecção e manutenção das roupas, tanto nossas como de casa.
Na altura da minha infância, a costureira que ia lá a casa era a senhora Maria Vitória, que enviuvara bastante nova e complementava a pequena pensão que recebia do Exército, por morte do marido, com trabalhos de costura; uma senhora também criativa e arejada, que ajudava a Mãe a realizar as suas ideias mais inovadoras. Antes das principais estações do ano, compravam-se os figurinos, acima de tudo para ver e tirar ideias, não tanto para copiar modelos, e principiavam a executar-se as roupas necessárias a cada estação, por vezes consistindo apenas em adaptações, se havia tecido nas costuras e bainhas. Lembro-me de certa vez (era eu bem pequena,entre os 3 e os 4 anos) em que havia vários vestidos em fase de acabamento que era preciso provar. A senhora Maria Vitória pôs-me em cima da mesa e eu, com um ar inchado de felicidade, pedi-lhe: "Sirva-me todos!". A partir de então, sempre que me via, mesmo passados muitos anos, a senhora Maria Vitória repetia a minha frase com um largo sorriso nos lábios.
Entendiam-se as duas às mil maravilhas, conversavam enquanto iam costurando, a Mãe dava uma ideia aqui e ali e as roupas nasciam com facilidade, muitas vezes reaproveitando tecidos de outras que tinham deixado de servir, pois que as crianças crescem no espaço de um relâmpago. Recordo vestidinhos com peitilhos em "favo de mel", casacos e camisolas de lã que a Mãe tricotava ao serão na sua máquina, as batas para proteger a roupa, bordadas com cerejinhas e outros motivos infantis e tantos outros miminhos de bom gosto que usei ao longo da vida, concebidos por ela.
Como pessoa criativa que era, andava muitas vezes à frente do seu tempo. Uma ocasião, nas vésperas de um Inverno frio e chuvoso como eram então os Invernos que se prezavam, teve a ideia de me fazer um casaco de alamares com capuz, que muito mais tarde virariam moda, embora diferentes do meu, que era tricotado numa bonita e quentinha lã escarlate. Fez o casaco, com bolsos (para mim, tudo tinha que ter bolsos, para meter pedrinhas e outras porcarias que encontrava no chão!), na máquina de tricotar e forrou-o todo com um 'plaid' de fundo preto, atravessado por risquinhas vermelhas, verdes, brancas e amarelas. Com o tecido sobrante, confeccionou umas calças, para que eu andasse quente enquanto brincava na rua. Nessa época, em 1960, uma menina não vestia calças! Era a única miúda da aldeia que tinha umas calças; os moços gritavam-me palavrões e epítetos variados, mas aturava-lhes os remoques com indiferença. Adorava andar de calças, que se tornaram, por várias razões, o principal componente do meu guarda-roupa, e talvez venha daí o meu gosto por peças de roupa um tanto diferentes. Dois ou três anos mais tarde, num Verão, a Mãe fez-me umas calças 'à pirata', num lindo tecido azul-turquesa, apertadas com fivela na perna, que eram um mimo e justificavam plenamente o nome de "pirata" que meu Pai me dava desde pequenita. Se estavam para lavar, era um desgosto, e já não queria vestir outra coisa.
Cresci, assim, no meio de coisas bonitas feitas pela minha Mãe, nas máquinas de costura e de tricotar ou com os seus sábios dedos e as agulhas de crochet e de coser. Construía com as mãos o mundo onde se sentia feliz.
Já mais para o final da vida, antes de a doença lhe entorpecer o cérebro, viu numa revista uns penduricalhos em crochet para as portas dos armários ou gavetas de cómodas e fez alguns. Já não tinha paciência para trabalhos demorados e havia mais roupas do que sítios onde as guardar, de modo que aquilo era perfeito para ocupar o tempo e tinha a vantagem de se fazer depressa. Veio-lhe então a ideia de fabricar uns penduricalhos para as garrafas de vinho. Fez centenas deles, que foi oferecendo às pessoas de quem gostava, aprimorando a técnica e desenvolvendo novas ideias. Eu comprava-lhe linhas finas de vários tons na retrosaria e ela ia compondo cachinhos de uvas, tintas e brancas, mais ou menos maduras; depois, introduziu-lhes gavinhas, cujo suporte eu preparava, com fio de cobre fininho e um alicate.
A certa altura partiu um braço, que foi imobilizado durante uns meses. A fractura tinha sido grave e era necessário que conservasse o braço quieto, pois havia o risco de necrose se a coisa começasse a dar para o torto. Nem assim! Mal se sentiu capaz de mexer a mão, vá de fazer bolinhas de crochet. Só me chamava para enrolar as bolas de algodão que lhes metia dentro. Como não era ainda capaz de compor os cachos, foi fazendo "uvas" e metendo numa caixa, que logo ficou vazia quando, finalmente, se viu livre das ligaduras que a peavam. Criou dezenas de variantes e, a certa altura, fez-me um conjunto de cachos com todas elas, que guardei religiosamente. Mais tarde, depois da chegada da gata, fazia também bolinhas de crochet para ela brincar.
Já a doença lhe minava o cérebro, embora ainda fosse ocupando os ócios com o crochet, quis oferecer umas pendurezas dessas a pessoa amiga e pediu-me se lhe cedia os cachos que tinha feito para mim, que iria repondo mais tarde. Fui parva e deixei. Nunca foram repostos, pois entretanto a deterioração tinha progredido depressa. No último Verão que passámos na praia, em que já estava num estado de grande agitação, sugeri-lhe que fizesse uns cachos de uvas, para ver se acalmava. Respondeu-me que ainda não era altura de estarem maduras.
Sobraram-me apenas dois, os primeiros dos muitos que fez, um deles incompleto.
Feliz aniversário, Mamã! Os teus dotes não estão esquecidos; guardo-os com todo o cuidado, como guardo as memórias no coração.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)


Beijinho Graça...
ResponderEliminarComo entendo tão bem suas memórias,Graça!Têm tanto de semelhante com as minhas...Um abraço apertado de coração❤
ResponderEliminarLembro me muito bem da tua mãe. Que paciência ela tinha!
ResponderEliminarOlá Graça! Adoro essa forma de escrever. Relembro a minha aldeia. Revejo-me nessas memórias... E mais tarde o Jardim e o Castelo de Abrantes e depois, o La Salle. Belos tempos!
ResponderEliminar