Foi em 1963 que mudámos de local de férias, da Figueira da Foz para as Caldas da Rainha, com idas a banhos à Foz do Arelho.
Ficámos, nesse ano, hospedados na Pensão dos Olhos Pretos. Sempre achei o nome poético e, nas passeatas nocturnas, conjecturávamos por vezes a quem pertenceriam os tais olhos. Lembro-me de escrever mentalmente umas quantas histórias sobre eles, nos minutos antes de adormecer, baseadas nas historietas fantásticas que então lia.
Numa breve olhadela pelo Google, verifiquei que ainda existe, com o nome Residencial Olhos Pretos e algumas críticas pouco elogiosas. O melhor que tem, dizem, é a localização central. De facto, era ali juntinho à Praça onde, ainda hoje, se comercializa logo pela manhã a fruta da região. Era uma boa pensão, à época. Nos dias de hoje, a julgar pelas fotografias, precisaria de mobiliário e decoração adequados, aproveitando os bonitos azulejos que tem de uma forma menos pindérica.
Cedo descobrimos, nesse primeiro ano, os agrados que as Caldas ofereciam. Perto da pensão achámos uma baiúca que, à noite (durante o dia, provavelmente, também, mas estávamos na praia) estava aberta, onde se vendiam as mães de todos os suspiros. Nada tinham a ver com os suspiros que conhecia ou viria a conhecer. A cor era diferente, e o tamanho, então... Gigantescos, para aí do tamanho de uma dúzia dos suspirecos que se vendem embalados em qualquer mercearia ou supermercado. É que aqueles suspiros tinham cor de caramelo e, por dentro, branquinhos, pareciam feitos de neve meio-derretida, com o merengue meloso e doce desafiando as papilas a cantar aleluias que nem os sinos da igreja da Senhora do Pópulo conseguiriam igualar. É minha convicção de que talvez fossem feitos com açúcar amarelo.
Claro que não no-los deixavam comer todos os dias, que aquilo era uma dose mortífera de açúcar, embora houvesse muito maior permissividade aos doces do que a que têm os pais mais modernos. Afinal, em minha casa, todas as sextas-feiras se faziam bolos e doces para toda a semana. Sobremesa era de regra, em refeições que consistiam quase sempre de sopa e dois pratos. Não sei onde metíamos tanta comida, nem como ainda tínhamos fome para lanches ou guloseimas nos intervalos!
Numa das ruas que desciam da Praça para o Parque, de um lado havia a Loja das Cavacas, que ficará para outra história, e várias lojas de louça das Caldas (não dessa em que estão a pensar), uma onde se vendiam apenas peças da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, outras onde se comercializava a cerâmica da SECLA e de outras pequenas fábricas familiares, de que falarei mais tarde.
Do outro lado da rua havia um rosário de pastelarias, quase pegadas umas às outras, com as mais variadas iguarias. Meus Pais elegeram uma, onde as mais das vezes entrávamos, quando as tardes se afiguravam incapazes de oferecer banhos e brincadeiras na areia, para um indulgente consolo. Nessa pastelaria fabricava-se um doce que não havia em lugar algum, segredo da dona, que o não passava a mais ninguém. Chamava-se “arrelia” e consistia numa simples fatia de torta. Fatias desse tempo, note-se, com cerca de um centímetro de espessura, não da grossura desmesurada das fatias que nos servem em qualquer pastelaria nos dias de hoje, por muitas vezes o preço daquelas. Bastava. Era tão deleitosa, aquela torta, cuja receita provinha decerto de segredo conventual, que a magra fatia era suficiente para nos deixar a sonhar com o paraíso. “Arrelias destas queria eu ter todos os dias!”, exclamava minha Mãe depois de a saborear. A torta, muito húmida, devia levar um ror de ovos, claro, um “everest” de açúcar e também alguma amêndoa finamente moída. Em vão minha Mãe tentou obter dicas sobre os ingredientes, para tentar reproduzi-la em casa.
Numa pastelaria mais acima entrávamos, muito espaçadamente, para consumar o pecado da gula consubstanciado numa trouxa d’ovos. Bastante mais caras que qualquer outro pastel, sabíamos que só de longe em longe nos era oferecido esse prazer. As capas de ovo da espessura de folhas de papel de seda sobrepostas, formando um pequeno canudo envolvido pela calda apurada a ponto de pérola e queimado com ferro, custavam 2$50. Vinte e cinco tostões era carote! Comíamos devagar, em pequenos pedacinhos, fazendo durar a volúpia o quanto podíamos, para terminar lambuzando-nos com a aromática calda.
Numa pastelaria mais acima entrávamos, muito espaçadamente, para consumar o pecado da gula consubstanciado numa trouxa d’ovos. Bastante mais caras que qualquer outro pastel, sabíamos que só de longe em longe nos era oferecido esse prazer. As capas de ovo da espessura de folhas de papel de seda sobrepostas, formando um pequeno canudo envolvido pela calda apurada a ponto de pérola e queimado com ferro, custavam 2$50. Vinte e cinco tostões era carote! Comíamos devagar, em pequenos pedacinhos, fazendo durar a volúpia o quanto podíamos, para terminar lambuzando-nos com a aromática calda.
Havia ainda outro ponto de interesse, um tanto prosaico: um carrinho de pipocas que estacionava todas as noites na praça onde desembocávamos, após a “volta dos tristes” pela Rua das Montras. Ali, um velho vendedor apregoava os jornais do dia, numa voz enrouquecida e com uma dicção peculiar, terminando o pregão com o Diário de Lisboa, como se dissesse “Peles de Coelho”. O que nos ríamos, de ouvido à escuta, esperando o final da ladaínha!
O carrinho do vendedor de pipocas exercia sobre mim um grande fascínio, não tanto pelo produto mas pelo processo de produção. Em casa, as pipocas chamavam-se “freiras” e eram feitas num pequeno “forno” embutido na parede exterior da cozinha, um buraco abobadado na parede que confinava com o quintal, onde se preparavam, por vezes, as brasas para a braseira, quando eu não as ia buscar, num caldeiro, à carvoeira que as fazia, do outro lado da rua. O milho rebentava e era preciso apartá-lo de imediato com uma pequena pá, para que não ficasse a saber a chamusco. No carrinho não havia nada disso, as pipocas iam crescendo vidro acima, loiras e gordas, e chegavam-nos num cartuchinho, temperadas com sal. Ainda não tinha nascido a moda das pipocas doces, caramelizadas, com aromas, manteiga e sei lá que mais, de que nunca gostei por aí além, porque a minha referência eram essas pipocas salgadas do primeiro carrinho que vi.
Ora, no Verão seguinte, já eu era conhecedora de todas as maravilhas que iria encontrar nas Caldas e tratei de me prevenir, guardando o dinheirito que me foram dando durante o ano. Era bastante gulosa (ainda sou) e gostava de rebuçados e chupa-chupas, que havia em abundância na modesta aldeia onde vivia. Não eram caros: rebuçados a meio-tostão, um ou dois tostões por um chupa-chupa caseiro de caramelo que era um monumento à gulodice. Gastei o menos possível, a pensar nos doces e “Rajás” de ananás com que haveria de me regalar nas férias.
Nesse ano fomos para uma casa particular, em que a dona se encarregava da limpeza e da comida, podendo assim minha Mãe escolher o que queria para as nossas refeições. Tratei de arranjar um escaninho no quarto para a “pataca”, onde guardava toda a minha “fortuna”. Tinham-me oferecido, provavelmente no Natal anterior, um pequeno porta-moedas em forma de sapatinho vagamente cinderélico, onde pouco cabia, mas também não era muito o que tinha.
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| O porta-moedas! Hoje exposto na beira de uma estante, a lembrar histórias. |
Meu Irmão era o farejador de esconderijos oficial lá de casa. Esperava por ele, estudante no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, sempre com ansiedade. Nas férias de Natal, pedia-lhe que descobrisse onde estavam escondidos os presentes e os frutos secos e outros ingredientes gulosos necessários à preparação dos doces da quadra, que minha Mãe colocava fora do alcance de mãozinhas atrevidas. Levava-o à despensa e indicava-lhe os lugares, nas altas prateleiras, onde tinha visto minha Mãe guardar coisas. Ele, que nem furão, encontrava tudo. Subtraíamos uma parte, que era distribuída por ele, por mim e pelo Pai e, quando a Mãe dava conta, já nos tínhamos aboletado com algumas nozes, amêndoas, passas , avelãs, etc. Era o nosso maná, e minha Mãe ria à socapa, pois contava com isso quando abastecia a despensa para o Inverno.
Nesse Verão, ele sabia dos meus planos e expectativas e, como o seu principal divertimento era arreliar-me a toda a hora, até eu reagir e me defender à dentada e ao pontapé, congeminou uma forma subtil de o fazer. Não tardou a encontrar, numa breve busca pelo quarto, o lugar onde eu guardava o tal sapatinho. Tirou algum dinheiro e começou a oferecer-me gulodices, generosa e quase diariamente. Eu andava nas nuvens! Ainda não nos tínhamos zangado uma única vez e ele apresentava-se mais gentil que nunca, sem me provocar os azeites como era costume. Hoje era um gelado, amanhã um suspiro, no outro dia umas pipocas, até uma ou outra trouxa d’ovos! Enfim... as minhas necessidades sacarídeas eram amplamente preenchidas, sem que eu tivesse de recorrer às minhas economias.
Dizem os provérbios que não há bem que sempre dure e que tudo o que começa tem um fim. Bem, um dia, o dinheiro acabou e deixei de receber aqueles mimos. Acabaram as tréguas, pensei, e fiquei esperando ser provocada para me transformar numa fera, mas não aconteceu. Numa tarde em que sonhei com uma lambarice qualquer, fui buscar o porta-moedas, que encontrei no preciso sítio onde o escondera e que vigiava regularmente e, quando abri o fecho, dei com ele quase vazio! Apenas uns tostões tinham restado no fundo. É claro que fiz um chinfrim, pois logo percebi que todos os paparicos com que o Mano me tinha presenteado haviam sido pagos com o MEU dinheiro, tão duramente poupado durante o ano precedente. Hell hath no fury like a woman scorned!
Minha Mãe acorreu à gritaria, está bem de ver e, inteirada das minhas queixas, passou um sermão ao Mano, não muito duro porque sabia bem que o propósito dele era, precisamente, enfurecer-me, dando-me a comer do próprio veneno. Ele dizia que eu era forreta e quis dar-me uma lição. Não era tanto assim, era apenas poupadinha, ainda que poupasse às minhas próprias expensas, privando-me intencionalmente de alguns prazeres. A Mãe insistiu na velha nota da diferença de idades (sendo que eu sou mais nova seis anos e tal) e prometeu repor o dinheiro que ele havia gasto e que eu sabia quanto era, tostão por tostão, de tantas vezes o ter contado. Lá sosseguei os ânimos com a promessa, mas fiquei furibunda, acima de tudo por ter passado por uma idiota chapada.
Nessa noite, ou numa das seguintes, estávamos na Praça e o Mano disse-me que esperasse ali por ele. Dirigiu-se a uma tabacaria do outro lado da rua, pouco se demorou e voltou. De trás das costas tirou um livrinho de histórias e ofereceu-mo, dizendo: “Desta vez, não foi com o teu dinheiro.”
Ainda o tenho, esse livro!
Havia lá coisa de que eu mais gostasse do que livros!! Selámos as pazes no mesmo minuto. Não é que ele não tivesse criado mais situações em que passei por parva, isso era o pão-nosso-de-cada-dia lá em casa! Acabei por me acostumar e rir, em lugar de me transformar num diabinho. Deve ter sido assim que as nossas brigas acabaram de vez, quando cresci o suficiente para compreender as diversas formas de amar.


Um grande "pequeno primeiro passo". :)
ResponderEliminarEheh! Foi crescendo, nestes meses que esteve à espera. As recordações, por vezes, vêm fragmentadas.
EliminarBem engendrados o plano e o contra-plano e bom (muito bom) relato. Venham mais!
ResponderEliminarUm beijinho. PSN
Obrigada, Pedro! Beijinho.
EliminarOs dentistas são os grandes opositores à campanha anti-açúcar!
ResponderEliminarBoa memória, a mim varre-se-me tudo, principalmente depois de uma anestesia longa que tive. Mas é curioso, que há mais coisas recentes esquecidas. As antigas, muitas permanecem. Deve ser por serem de uma época em que pensava que era feliz...e por parvoíce, sonhava crescer.
Também fui sujeita a uma longa anestesia, mas os efeitos foram exteriores: perdi cabelo que nunca recuperei, às mãos cheias, como se tivesse feito quimio, durante mais de um ano. O que vale tinha muito! A memória ficou intacta e, ao que parece, é de elefante. :)
EliminarQue memória tu tens! Já me não lembrava de muitos pormenores que contas. Lembro-me melhor de te ter assustado no barco a remos em que fomos andar, no lago do Parque das Caldas da Rainha. Lembras-te? Mas logo te tranquilizei, quando começaste a chorar copiosamente, deveras assustada. E um dia, em casa, no Pego, em que me pus inerte, a fingir que estava morto, depois de me teres batido, para pensares que me tinhas matado... E pensaste! Ias para fugir para casa da vizinha... Fazia-te muitas diabruras!
ResponderEliminarTemos histórias fabulosas, Mano! Mesmo com um erro aqui outro ali, vale a pena contá-las.
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